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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Alguns amigos meus. Do teu antigo

Zelo confio, como sempre, a mesa;

Deita os cristais abaixo; na de Holanda

Toalha que mais fina houver na casa,

Com arte me dispõe, com simetria,

A baixela melhor."

VII

lsto dizendo,

A matutina refeição despacha;

Murmurando de cólera se veste,

E roxo como a renascente aurora,

Chama um lacaio e um bilhetinho manda

Às colunas da igreja fluminense.

Tal o prudente capitão, se as armas,

Que até-li defendeu, vexadas foram,

A conselho convoca os demais cabos,

E do ousado inimigo prontamente

Decretam juntos a vergonha e morte.

VIII

Quando veio o jantar, sombrio e mudo,

Sentou-se o grande Almada, e mastigando,

Com distraído gesto, alguns bocados,

Nenhuma frase de seus lábios solta.

Debalde o Vilalobos, seu vigário,

Todo se remexia na cadeira;

Debalde o médio Lucas consultava

Os seus colegas, desejosos todos

De irem dormir a costumada sesta;

A misteriosa causa do silêncio

Em que o prelado jaz ninguém descobre.

Enfim, o grande Almada se levanta,

E para a ceia diferindo o caso

(Tanto nele inda a cólera rugia!)

Sem a bênção e as rezas de costume

Tornou da mesa extinta ao fofo leito;

Doce exemplo que os outros imitaram,

E em desconto de algum perdido tempo,

Dormiram muito além de ave-marias.

IX

Mas o Veloso, adulador e astuto,

Não conseguiu dormir. Em vão na cama

As posições mudava; o pensamento

Velava inteiro e afugentava o sono.

Maravilha era essa, e grande e rara,

Pois entre os dorminhocos desse tempo

Tinha lugar conspícuo; antes das nove,

Sem embargo da sesta, era defunto,

E nunca ouvira o despertar do galo.

X

Quando ao sinal da ceia, aparelhados

Correram todos à pejada mesa,

Antes de se sentar silêncio pede

O Veloso e, três vezes a cabeça

Curvando, fala: “Se partis conosco,

Magnânimo prelado, as alegrias,

Por que as mágoas furtais aos nossos olhos?

Ah! dizei que importuna, estranha causa

Melancólico véu no amado rosto

Desde o jantar vos pôs! Debalde busco

A razão descobrir de tal mudança.

Dar-se-á que, por descuido da cozinha,

Na sopa entrasse o fumo? Eu, se não erro,

Vestígios dele achei, posto que a pressa

Com que a sopa comi me disfarçasse

De algum modo o sabor. Ou, no trajeto

Daqui à Sé, algum clérigo novo

Vos faltou coa devida reverência?

Contai, senhor, contai a amigos velhos

Males que deles são!”

XI

A tais palavras,

Com o punho cerrado sobre a mesa, o prelado despede um

grande golpe

Que faz tremer terrinas e garrafas

E apaga a cor nos lábios do Veloso.

Logo mais sossegado, e perpassando

Pela douta assembléia um olhar grave,

Encara o pregador; e dando à fala

Menos rude expressão, assim responde:

“Não, amigo, a razão da minha cólera

Nenhuma dessas foi. A baixa inveja

Do presumido Mustre, a quem basbaques

Tecem descompassados elogios

E cujo nome nas tabernas brilha,

lsto só me acendeu dentro do peito

Desusado furor. Vós do meu cargo

Companheiros fiéis que com diurna,

Noturna mão versais minha alma inteira,

Uma parte tornai da funda mágoa

E ajudai-me a punir tamanha afronta!”

XII

Aqui refere o caso da devassa

Que aos figadais, solícitos amigos,

Lhes arrepia as carnes e o cabelo,

E desta sorte acaba o seu discurso:

- "Eu merecera arder no eterno fogo

Que o cão tinhoso aos pecadores guarda,

Viver de bacalhau toda a quaresma,

Dormir três horas numa noite inteira,

Se esse infame ouvidor, parto do inferno,

Triunfasse de mim, e ao riso e às chufas

Me expusesse da plebe e dos lacaios.

Que diriam de mim nesses conventos,

Focos de luz, onde o meu nome há muito

De tão ilustre ofusca os outros nomes,

Qual a um raio se vê do sol brilhante

Da noite os claros lumes desmaiarem?

Eia! a afronta comum igual esforço

De todos nós exige. As vossas luzes

Me ajudarão neste difícil caso,

E se inda o mundo não perdeu de todo

O lume da justiça, aquele biltre,

Que tão cheio de si anda na terra,

Tamanho tombo levará do cargo

Que estalará de espanto e de vergonha.

XIII

Assim falou Almada, e toda a mesa

Lhe aprovou o discurso. O Vilalobos,

Em quem os olhos fita o grão prelado,

(continua...)

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