Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar a Obra amada - quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de vime que uma toalha de rendas cobria.

- Um presente.

- Um presente... De quem?

- Da Feitosa, das senhoras.

- Bravo!

- E com uma carta, que vem pregada na toalha.

Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o sobrescrito! Mas, apesar de lacrado com um pomposo selo de Armas, apenas continha linhas a lápis num bilhete de visita da prima Maria Mendonça:

- "Ontem ao jantar contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêssegos sobretudo aboborados emvinho, e a Anica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho de pêssegos da Feitosa, que como sabe são falados em todo o Portugal... Mil saudades".

- Gonçalo imaginou logo no fundo da cesta, debaixo dos pêssegos, docemente escondida, umacartinha da D. Ana!

- Bem! São pêssegos... Deixa ai sobre uma cadeira...

- Era melhor que os levasse já para a copa, Sr. Dr., para os arrumar na prateleira...

- Deixa sobre a cadeira!

Apenas o Bento cerrara a porta, estendeu no chão a toalha, entornou cuidadosamente por cima os pêssegos formosos que perfumavam a Livraria. No fundo da cesta encontrou apenas folhas de palra. Levemente desconsolado, cheirou um pêssego. Depois considerou que os pêssegos, arranjados por ela, com parra que ela apanhara na latada, sob toalha que ela escolhera no armário, formavam na sua mudez cheirosa um recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o pêssego: - e recolocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.

Mas, ao outro dia, às duas horas, já com a parelha do Torto engatada à caleche, já com as luvas calçadas para a jornada de Oliveira, recebeu uma inesperada visita a visita do Sr. Visconde de Rio-Manso. Descalçando as luvas o Fidalgo pensava: - "O Rio-Manso! Que me quererá esse casmurro?" - Na sala, pousado à beira do canapé de veludo verde e esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Vila-Clara e diante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento para apresentar os seus respeitos ao Sr. Gonçalo Ramires. E não só para esse gostoso dever - mas também (como soubera que S. Exa. se propunha Deputado pelo Circulo) para lhe oferecer na freguesia de Canta-Pedra o seu préstimo e os seus votos...

Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia embaraçadamente o bigode. E o Visconde de RioManso não estranhava aquele pasmo porque decerto o Sr. Gonçalo Ramires o conhecera sempre como ferrenho Regenerador... Mas então! Ele pertencia à geração, agora bem rareada, que antepunha aos deveres da Política os deveres da gratidão: - e além da simpatia que lhe merecia o Sr. Gonçalo Ramires (pelo que constava em todo o Distrito do seu talento, da sua afabilidade, da sua caridade) também conservava para com S. Exa. uma divida de gratidão, ainda aberta, não por indiferença, mas por timidez...

- V. Exa. não adivinha, Sr. Gonçalo Mendes Ramires?... Não se lembra?

- Não, realmente, Sr. Visconde, não me...

Pois uma tarde o Sr. Gonçalo Mendes Ramires passava a cavalo pela quinta da Varandinha, quando a sua neta, brincando no terraço (aquele terraço gradeado donde se curva uma magnólia), deixou escapar uma péla para a estrada. O Sr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo, apeou imediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir à menina debruçada da grade, abeirou a égua do muro depois de montar - e com que ligeireza e garbo!...

- V. Exa. não se lembrava?

- Sim, sim, agora...

Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um jarro cheio de cravos. O Sr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a menina (que, louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ela escolheu - e que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E ele, que observara da janela do seu quarto, pensava: - "Ora aí está! Este Fidalgo da Torre, um tão grande Fidalgo, que amável!" - Oh S. Exa. não tinha que rir e corar... A gentileza fora grande - e a ele, avô, parecera imensa! Mas não ficara somente na péla apanhada...

- O Sr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?...

- Sim, Sr. Visconde. com efeito, agora...

Pois, logo no outro dia, o Sr. Gonçalo Mendes Ramires mandara da Torre um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e numa linha este gracejo: - "Em agradecimento dum cravo, rosas à Sra. D. Rosa".

Gonçalo quase pulou na cadeira, divertido:

- Sim, sim, Sr. Visconde, perfeitamente!,,, Agora me recordo!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8788899091...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →