Por Coelho Neto (1890)
Se um pântano aparece ao longe, precipitam-se atropeladamente, ajoelhamse à beira d'água morta e bebem, arrancam a taboa e envenenam-se. Alguns morrem e ficam apodrecendo nos caminhos; outros, com desânimo, deixam-se cair à sombra escassa de uma árvore sem folhas e sucumbem à míngua ou devorados pelas onças. E quanta tristeza nas cantilenas! Este, lembra a sua casinha de palha, entre os milhos; aquele, fala, com saudade, da sua roça, do lugar em que nasceu, de onde saiu pela primeira vez, expulso pelo sol. E o clamor, que é assim que eu chamo ao canto dos retirantes, o hino magoado dos banidos, ecoa de quebrada em quebrada lamentavelmente.
Mas, meu velho, mais cruel que o sol é o coração do homem. Esses infelizes são explorados na sua miséria. A virgem, quando chega à primeira vila, aparece logo o libertino propondo um punhado de farinha a troco da sua pureza, e a desgraçada, que tem fome, entrega-se, às vezes, perto dos pais moribundos, diante dos pequeninos irmãos, que olham espavoridos.
— É infame!
— É uma miséria! Mas que queres? É assim. Eu queria que me mandassem dirigir o serviço no Ceará e eu que encontrasse um desses patifes! Arregalou os olhos e bufou colérico, com os punhos cerrados: Esganava-o, palavra de honra! Esganava-o! Vais ver a miséria.
Haviam chegado ao cais Pharoux. Catraieiros avançaram de chapéu na mão, oferecendo botes:
— É para o nacional? Temos ali a Maria Flora, patrão... Olha o Ventania... É para o francês? Quer um bote, patrão? Eu tenho toldo. Podemos ir à vela... E assediavam-nos, falavam ao mesmo tempo, disputando os dois rapazes. E o Neiva, muito calmo, sem lhes dar atenção, bradou diante do mar:
— Lá está ela! Ali vem! Irrompeu então contra os homens. Pois os senhores não me vêem embarcar aqui todos os dias? Não sabem que tenho lancha? Não me conhecem? E empertigado, ameaçando com a bengala: Enquanto eu não vier um dia disposto a fazer uma limpeza neste cais isto não endireita. Os catraieiros retiraram-se cabisbaixos e o Neiva, rugindo, acompanhou-os algum tempo com o olhar chispante. Depois voltou-se para o Castelo: Lá está o sinal do paquete. Vamos, está aí a lancha. E caminharam para o embarcadouro.
Como deviam entrar dois paquetes, já assinalados no Castelo, era grande o movimento de embarcações no mar — botes que iam à vela ou a remo, lanchas que partiam sulcando fundo as águas. A baía fulgurava toda em chispas, ao sol. Gaivotas circulavam no ar puro, grasnando. Os dois tomaram a lancha que logo se pós em marcha, demandando o navio que entrava, lento e negro, vagaroso, pesado. — Pobre gente! — exclamou o Neiva com a mão em pala diante dos olhos encandeados. Parece que vem ali um pedaço da minha terra infeliz, o meu Ceará amado. Por que há de o Senhor causticar aquela bendita região dos palmares? É uma praga! Parece que o Ceará foi escolhido pelo sol para vítima. De tempos a tempos, bumba! Lá vem a seca e é isto que estás vendo — o Sertão a emigrar, a fugir diante do incêndio e da aridez.
O paquete avançava majestoso e a lancha ia passando entre um cruzador e um pontão quando sons agudos de corneta retiniram, depois apitos e um escaler foi baixando dos turcos sobre o mar onde começou a balouçar-se graciosamente.
— Belo navio, disse Anselmo.
— É a Guanabara.
— A minha carreira...
— O homem, pois gostas disso?
— Da marinha? Não estou ali a bordo porque meus pais entenderam que eu tinha vocação para médico. Fui mesmo à escola, mas no anfiteatro, diante do primeiro cadáver, o meu estômago protestou com tanta energia que resolvi abandonar o escalpelo e o esqueleto e atirei-me à balança e à espada. Ah! Meu amigo, o mar...! Não imaginas como adoro o oceano!
— Pois eu detesto-o.
— Enjoas?
— Não, a bordo devoro como um escrivão de cartório. Mas deixa lá! Não há como a terra firme: pisa-se em cheio. Isso de saber a gente que está à mercê do vento e da vaga não é comigo. Shakespeare já disse: pérfida como a onda e eu já me vi com água pela barba, em uma viagem.
— Naufragaste?
— Quase! Fomos sobre uma pedras e não te digo nada... que horror! Mas sabes o que mais pena me causou? Foi ver lançarem ao mar um precioso carregamento de conhaque... caixas sobre caixas. Eu quis protestar com uma objeção razoável. "Comandante, se continua a dar bebidas ao oceano então é que ele nos arranja alguma com a ressaca..." Mas o homem estava tão grave no seu posto de responsabilidade que retirei o conselho e meti-me no beliche chorando o desperdício. Nada como a terra firme, sempre há mais segurança. Em terra só naufragam empresas. Isso de ir um de nós para as areias alimentar as sardinhas não é nada sedutor. Não há como um homem sair da sua casa barbeado, vestido, em um caixão de primeira com os seus parentes e amigos para o cemitério. Sempre a gente sabe onde está... e pode ter a sua coroa no dia de finados.
— Ora, isso é uma preocupação fútil.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.