Por Eça de Queirós (1925)
Para não estar immovel, approximou-se a examinar um quadro que pendia por cima d'uma ronsole onde havia porcellanas : mas na meia obscuridade que dava o abat-jour, apenas via os dourados desbotados do caixilho ; voltou-se, mais embaraçado, infeliz : duas velhas com enfeites negros, as mãos no regaço, um aspecto de placidez embrutecida, pareciam examinal-o com uma curiosidade desdenhosa ; quasi angustiado, furioso com o Meirinho que desapparecera, com D, Joanna que o esquecera — entrou na outra sala, com a esperança de a vêr, a Ella ! Na sua turbação, distinguiu apenas, na mesma penumbra que cahia dos abats-jours, peitilhos claros de sujeitos recostados, corpetes de sêda onde reluziam medalhões ; leques palpitavam devagarinho ; fanava-se francez. Junto d'uma jardineira, no meio da sala, uma magnifica mulher d'aspecto esculptural, de bella e soberba massa de cabello louro, remexia distrahidamente em photo graphias espalhadas : sentada de lado á beira da cadeira, toda a riqúeza das suas linhas ficava em relevo e a longa cauda escarlate do vestido esten dia-se amplamente sobre o tapete. Mas Ella não estava, não viera, não era talvez mesmo das relações de D. Joanna. A 80irée perdeu para Arthur todo o encanto ; todo o attrahente calor ambiente pareceu-lhe ficticio, d'um ceremonial frio.
Ia retirar-se, intimidado, quando ouviu a voz de Carvalhosa : gesticulava entre dous sujeitos, ao fundo, junto da chaminé, onde um guerreiro de bronze sobre um cavallo empinado brandia uma espada. Approximou-se logo d'elle, com um sorriso quasi servil, todo reconhecido ; o Carvalhosa deu-lhe um olá ! secco, desdenhoso, e mesmo abaixou a voz. Arthur então, desesperado, examinou um momento o bronze : sentia os pés pesados como chumbo, as orelhas ardentes ; muito perturbado, veio tropeçar na longa cauda de sêda escarlate : a senhora voltou-se com um olhar que brilhou o aconchegou o vestido com um gesto brusco, quasl irritado.
Arthur voltou á primeira sala e ficou um mo. mento junto da porta, immovel : sentia que as articulagões se lhe emperravam. E teria de passar toda a noite, errando assim de hombreira em hombreira, mudo, grotesco, lugubre . , .
E as tres meninas que conservavam ainda egoistamente o album ! Como desejaria approximar-se do Padilhão, refugiar-se n'elle como n'uma intimidade animadora; mas via-o tão cercado de saias, de sêdas, de penteados enchumaçados, de leques abertos !... E sobretudo, a intimidade que unia aquellas pessoas e as envolvia como uma atmosphera — tornava o seu isolamento mais pungente. Deviam de certo pensar : que provinciano, que lapuz ! » Achou aquella gente artificial, egoi,sta, amaneirada ! Que saudades do seu robe-de-ehambre de velludo, no quarto do Universal, ou do hotequim da Corcovada, em Oliveira ! Porém, não podia ficar alli, espectralmente collado á hombreira da porta ! Já surprehendera olhares de lado, sorrisos que lhe punham nas
costas um suor afflicto, e com um esforço da vontade reteeada, approximava-se da mesa, para se apoderar das vistas stereoscopicas, quando D. Joanna, o peito alto, batendo o leque, n'um ruge-ruge de faitte rica, se dirigiu a elle :
— Então tem gostado de Lisboa ?
— Muito, minha senhora!—respondeu com todo o sangue nas faces.
— Ah, gosta-se sempre . . . ! — Sorria por cima do hombro d'Arthur para o grupo das meninas que folheavam o album : ameaçou-as mesmo com o leque; com um rapido brilhar das pupillas negras. — Está um tempo muito agradavel, não ?
— Adoravel !
— E vai durar, é d'esperar . . . — Tornou a sor rir para as raparigas, a ameaçal-as com o leque —
E demora-se ?
— É provavel !
— Terei muito prazer — abaixou-lhe a ca beça com um movimento lento que lhe cerrou as palpebras e com outro sorrizinho que lhe descobriu as gengivas, afastou-se, dizendo ainda : — O Meiri-
Ilho está com o seu whist . . ,
Arthur viu-a um momento fallar ás meninas, rindo, com a cinta sempre mobil, como que sustentada no ar pelo tufado das saias; depois, debruçar-se para o album, fallar-lhes sobre o rosto, pondo a mão no hombro d'uma ou d'outra. viva, radiante ; acha, va•a provocante com o seu longo nariz, os dentes tão brancos, aquella magreza quasi masculina onde corria uma vibração de nervos excitados ; e mais animado, como se as palavras que dissera lhe tivessem dissipado o entorpecimento, atravessou a outra sala, para ir vêr o Meirinho na sua partida de whist. Havia dous reposteiros ; abriu um d'elles, e topou com uma porta fingida ; n'um vão estava uma vassoura ! Vermelho até á raiz dos cabellos, ergueu o outro : ao fundo d'uma saleta, Meirinho lá estava a uma mesa de Arthur apoderou-se avidamente d'uma cadeira e installou-se entre elle e um sujeito de suíças grisalhas e oculos d'ouro.
— Então tem-se divertido — perguntou-lhe Meirinho,
Recebeu as suas cartas e recahiu n'uma reflexão immovel, coçando devagar a barba. Arthur não sabia o whist ; mas como se fumava, accendeu um charuto, mostrando-se interessado pelo jogo, seguindo attentamente as cartas, estabelecido alli como n'um refugio amavel, no terror da sala, das hombreiras solitarias, das caudas de sêda . . .
O monotono movimento das cartas ia-lhe dando um torpor somnolento : com o claque nos joelhos, a cabeça vazia, uma vaga sêd_e, abandonavase n?uma inercia molle, enfastiada, de que o tirava o Meirinho de vez em quando, dizendo-lhe, com um tom satisfeito :
— Não se faz vintem !
Aquillo escandalisava o gujeitG d'oculos, que perdia :
—O que não se faz, o que não é decente é ter uma sorte tão escandalosa !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.