Por Eça de Queirós (1900)
Uma alta grita, no entanto, atroara as muralhas de Santa Irenéia! Virotes, flechas, balas de fundas assobiavam, despedidas no mesmo furioso repente, sobre o bando de Baião: - mas apenas um dos besteiros que carregara as andas tombou, estrebuchando, com uma flecha na ilharga. Pela cancela das barreiras já Cavaleiros e donzéis de armas empurravam desesperadamente para recolher o corpo de Lourenço Ramires. E Garcia Viegas, os outros parentes, galgaram ao eirado da barbacã, donde Tructesindo se não arredara, rígido e mudo, fitando as andas e seu filho estatelado com elas sobre o terreiro da sua Honra. Quando, ao rumor, ele pesadamente se voltou - todos emudeceram ante a serenidade da sua face, mais branca que as brancas barbas, duma morta brancura de lápide, com os olhos ressequidos e cor de brasa, a latejar, a refulgir, como os dois buracos dum forno. Com a mesma sinistra serenidade, tocou no ombro do velho Ramiro, que tremia arrimado ao seu chuço. E numa vagarosa e vasta voz:
- Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a alma ainda hoje, por Deus! lha vou eusossegar!...
Afastou aqueles senhores emudecidos de assombro e de emoção - e baixou pela gasta escada de madeira, que rangia sob o peso do enorme Rico-homem carregado de ira e dor.
Nesse momento, entre besteiros e serviçais que se atropelavam - o corpo de Lourenço Ramires transpunha o portelo das barbacãs, segurado pelo formoso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos afogueados de lágrimas e rouquejando ameaças furiosas contra a raça de Baião. Atrás o trôpego Ordonho gemia, abraçado à espada de Tructesindo, que apanhara no chão do Terreiro e que beijava como para a consolar. À borda do fosso uma aveleira espalhava a sombra leve num bronco tabuão pregado sobre toros - de onde, aos domingos, com o adanel dos besteiros, Lourenço dirigia os jogos de besta e frecha, distribuindo fartamente as recompensas de bolos de mel e de vinho em pichéis. Sobre essas tábuas o estiraram - recuando todos depois, enquanto aterradamente se benziam. Um Cavaleiro de Briteiros, temendo por aquela alma desamparada e sem confissão, correra à capela da Alcáçova procurar Frei Múncio. Outros, rodeando toda a muralha até o Baluarte-Velho, gritavam, com desesperados acenos, para o torreão escalavrado, onde, como um mocho, habitava o Físico. Mas o certeiro punhal do Bastardo acabara o denodado Lourenço, flor e regra de Cavaleiros por toda a terra de Riba-Cávado... E que lastimoso e desfeito - com suja terra na face, a garganta empastada de sangue negro, as malhas do saio rotas sobre os ombros e embebidas nas carnes retalhadas, e nua, sem greva, toda inchada e roxa, a perna ferida em Canta-Pedra, onde mais sangue e lama se empastavam!
Tructesindo descia, lento e rígido. E as secas brasas dos seus olhos mais se incendiam, enquanto, através do dorido silêncio, se acercava do corpo de seu filho. Diante do banco ajoelhou, agarrou a arrefecida mão que pendia; e, junto à face manchada de sangue e terra, segredou, de alma para alma, num abafado murmúrio, que não era de despedida mas de alguma suprema promessa, e que findou num beijo demorado sobre a testa, onde uma réstia de sol rebrilhou, dardejada dentre as folhas da aveleira. Depois erguido num arrebate, atirando o braço como para nele recolher toda a força da raça, gritou:
- E agora, senhores, a cavalo, e vingança brava!
Já pelos pátios, em torno da Alcáçova, corria um precipitado fragor de armas. Aos ásperos comandos dos almocadéns as filas de besteiros, de arqueiros, de fundibulários rolavam dos adarves dos muros para cerrar as quadrilhas. Rapidamente, os cavalariços da carga amarravam sobre o dorso das mulas os caixotes do almazém, os alforjes da trebalha. Pelas portas baixas da cozinha, peões e sergentes, antes de largar, bebiam à pressa uma conca de cerveja. E no campo das barreiras os Cavaleiros, chapeados de ferro, carregadamente se içavam, com a ajuda dos donzéis, para as altas selas dos ginetes - logo ladeados pelos seus infanções e acostados, que aprumavam a lança sobre o coxote assobiando aos lebréus.
Enfim o Alferes, Afonso Gomes, sacou da funda e desfraldou o pendão num embalanço largo em que as asas do Açor negrejaram, abertas, como soltando o vôo enfurecido. O grito agudo do Adail ressoara por toda a cerca - ala! ala! De cima de um marco de pedra, junto ao postigo da barbacã, Frei Múncio estendia as magras mãos ainda trêmulas, abençoava a hoste. Então Tructesindo, sobre o seu murzelo, recebeu do velho Ordonho a espada, de que tão terrivelmente se apartara. E, estendendo a reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar, bradou:
- Muros de Santa Irenéia, não vos torne eu a ver, se em três dias, de sol a sol, ainda restarsangue maldito nas veias do traidor de Baião!
E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao pendão solto - enquanto, na torre de Almenara, sob o parado esplendor da sesta de agosto, o sino grande começava a tanger a finados.
Quando Gonçalo à tarde, enterrado na poltrona à varanda, releu este Capítulo de sangue e furor sobre que se esfalfara durante a semana, pensou "que o lance impressionaria".
Sentiu então o apetite de recolher sem demora os louvores merecidos - e de mostrar a Gracinha e ao Padre Soeiro os três Capítulos completos antes de remeter o manuscrito para os Anais. E mesmo lhe convinha - porque a erudição arqueológica do Padre Soeiro forneceria talvez algum traço novo, bem Afonsino, que mais avivasse aquela ressurreição da Honra de Santa Irenéia e dos seus senhores formidáveis. Imediatamente resolveu partir de manhã para Oliveira com o seu trabalho - que, depois de esmiuçado pelo Padre Soeiro, confiaria ao procurador de D. Arminda Vilegas para ele o copiar naquela sua formosa letra, tão celebrada em todo o Distrito e apenas igualada (nas maiúsculas) pela do Escrivão da Câmara Eclesiástica.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.