Por Coelho Neto (1890)
Anselmo, que vira entrar o Teixeira, alteou a voz, falando dos russos, mas o arquiteto interrompeu-o:
— Minha roupa! Vendo a imensa camisa, reconheceu-a imediatamente e, de braços cruzados, meneando com a cabeça, exclamou: Ora, seu Anselmo... pois você!
— Que é?
— Que é! É a minha camisa que o senhor tem no corpo.
— É tua?
— De quem há de ser?
— Pois olha, não sabia.
— Ah! Não sabia? Pois saiba então. A camisa, as meias, as ceroulas, tudo que o senhor tem no corpo.
— Perdão: as calças são minhas, o colete, o casaco, a gravata, o chapéu, as botinas...
— Eu falo da roupa branca.
— Branca é um modo de dizer: amarela, porque está encardida. Tens uma lavadeira detestável.
— Não sei, vamos ao Grêmio porque eu preciso da roupa. Quem o alheio veste...
— No Grêmio o despe, concluiu o boêmio, e fleumaticamente: Mas eu não dispo.
— Como não despes? Então pretendes ficar com o que é meu? Achas que devo andar com um colarinho amarfanhado e você aí muito janota...
— Janota com esta gola? Ora seja tudo pelo amor de Deus! Teixeira, deixame com a roupa. Eu quero devolver-te lavada pela minha lavadeira, que é uma artista.
— Mas eu não quero! — rugiu o arquiteto.
Das outras mesas já olhavam curiosamente quando o Patrocínio e o Moraes decidiram intervir na questão, responsabilizando-se, o primeiro pela camisa e por um pé de meia; o segundo, pelas ceroulas e pelo outro pé de meia. E o Teixeira foi convidado para a mesa tomando furiosamente uma cajuada, enquanto o queixo de Anselmo aparecia e desaparecia no abismo do colarinho.
Quinze dias depois o Grêmio de Letras e Artes, esperança do Brasil literário, fechava as portas depois de renhida discussão, que ia degenerando em pugilato. Os ilustres fundadores do grande cenáculo saíram pesarosos e convencidos de que, entre homens de letras, não há espírito de associação.
— "Não coadunam, dizia o louro secretário, homens de talento não fazem liga, é escusado. Um poeta e um romancista podem engalfinhar-se, ligar-se é que não. Isso nunca!"
E durante um mês, aos jantares, não apareceu proposta alguma para fundação de clubes literários.
Fortúnio e Anselmo sentiram profundamente, porque perdiam uma casa magnífica, posto que o Teixeira, escarmentado, não quisesse mais permitir dormidas no santuário do espírito. Resignaram-se e atiraram-se ao mundo com coragem e fé.
Uma manhã, Anselmo rondava os cafés lançando olhares compridos, quando o Neiva apareceu esbaforido:
— Ó homem! Madrugaste?!
— Não dormi.
— Como, não dormiste?
— Não, passeei: fui a Botafogo a pé, fazer horas.
— Deves estar estafado.
— E louco por uma xícara de café.
— Vamos tomar. Entraram no lava e o Neiva, servindo-se de açúcar, disse de repente: Homem, queres uma impressão?
— Preferia um par de sapatos.
— Isso agora é difícil.
— Dize lá.
— Vem comigo a bordo. Vou receber a primeira leva de retirantes.
— Os cearenses?
— Sim.
— É hoje?
— É agora. O paquete está entrando.
— A que horas poderemos estar de volta?
— Às duas. Se queres, decide-te.
— Vou. O diabo é que perco a hora do almoço.
— Almoçaremos a bordo.
— Mas... haverá ainda alguma coisa? Um navio que vem do Ceará...
— Ó homem, avia-te!
— Vamos lá. Seguiram.
CAPÍTULO XXII
O Neiva, muito loquaz, pôs-se a falar dos patrícios que vinham nesse êxodo triste, tocados pela fome.
— Pobre gente! É o sertanejo da minha terra, é o rústico do meu campo cearense, é o caboclo serrano, é toda a população do grande centro flagelado. Vais ver que miséria. Deus não se compadece do meu Ceará. De vez em quando é isso — um sol tremendo que bebe toda a água dos rios, que seca todas as fontes, e começa o abandono da terra. Quem anuncia a calamidade é o gado arribando das várzeas adustas com o "choro" lamentoso que se ouve à distância como um prantear da natureza sacrificada. Parece que é a própria terra que geme e clama misericórdia. Depois é o homem que, vendo mirrar a sua roça e não encontrando gota de água no açude árido, fecha a porta da cabana e emigra. Oh! A retirada...! O gado vai caindo exausto pelos caminhos e os corvos baixam sobre os bois magros e acabam-nos a bicadas, devorando-os em vida. O homem, mais resistente, caminha afundando os pés na areia adusta, com a cabeça ao sol, cantando para suavizar a marcha dolorosa. E são velhos trôpegos que mal podem mudar um passo, mulheres, crianças e moças virgens, sertanejinhas formosas, abandonados, caminhando sem ver um oásis, através da esterilidade inclemente.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.