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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Ao lado, o burro zurrava convulsivamente e aquelle ronco bestial, vindo atravez d'um repos teiro de fazenda escura, com um monogramma bor dado sob uma coroa, dava a Arthur a impressão d'uma estrebaria installada n'uma soirée.

—É o nosso amigo — disse ainda Meirinho. Deu um puxão á casaca e ergueu o reposteiro.

Era com effeito o Padilhño : no meio da sala, torcido sobre uma cadeira, com as mãos nas ilhargas, a face roxa, fazia a sua grande imitação do burro com cio » !

Admiravam-no ! Sujeitos graves, as mãos atraz das costas, tinham nas faces burocraticas expres soes approvadoras e profundas ; dos sofás, na pe numbra, estendiam-se magros pescoços avelhentados, boccas de poucos dentes entreabertas de pasmo; e as senhoras, de pé, com o peito alto, a cabeça de lado, o rosto luzidio de satisfação, saboreavam com rizinhos calidos a sensação de bestialidade que es palhava na sala aquelle rouco bramar de cio !

— Muito bem ! Muito bem ! Magnifico !

Elle erguera-se com os olhos injectados, arquejante, alargando o collarinho, murmurando :

— Esta do burro, mata-me !

Trouxeram-lhe agua com assucar ; as senhoras cercavam-no, electrisadas, como procurando n'ellQ o cheiro, o calor, a excitação d'estio do animal, E pediam-lhe que fizesse a Emitia das Neves ! Só u-m instantinho ! Padilhão repellia-as, quasi brutalmen•• te, inchado, bufando, e foi refugiar-se n'um sofá, ao pé de duas velhas, abanando-se com o lenço :

— Isto não é forja de ferreiro ! Isto não é forja de ferreiro ! Esta do burro, !

Meirinho então, correndo para Joanna Coutinho que atravessava a sala, apresentou Arthur. Ella deu-lhe um grande sha7ce,-hands varonil, com um sorriso amigo que lhe dexq cobriu os dentes até ás gengivas :

— Muito prazer ! . . . admiravel o Padilhão ! Tem-nos divertido immenso !

Arthur olhava-a com admire cão : muito alta, de feições um pouco masculinas, as maçãs do rosto salientes e córadas, o nariz grande, os labios tão vermelhos que pareciam sanguinclentos—a sua força estava nos olhos encovados, muito negros, brilhane tes, voluntariosos ; da sua cinta espartilhada, mobil, secca, cabia uma camada espessa de saias, com um ruge-ruge d'engommados e de failZe dura ; e havia na sua magreza, nos seus movimentos d'uma ondulação felina, no seu cabello veto forte, no macio das suas mãos longas e estreitas, n'aquella quantidade de saias rijas, um tom ardente, decidido, que preoccupava e irritava.

— Ha muito tempo em Lisboa — perguntoulhe ena ?

Mas Padilhão, erguendo a voz do fundo da sala, d'entre um grupo de senhoras :

— Oh, snr.a D. Joanna, venha oá ! Venha decidi.r I

Ella deu um sorriso a Arthur e foi logo, balanqarxdo a camada sonora das saias.

Arthur, só, isolado, procurou Meirinho com um olhar inquieto, e, não o vendo, ficou muito embaraçado, com o claque collado á perna, sentindo o acanhamento entorpecel-o, os dedos errantes sobre o bigode. A penumbra projectada pelo grosso abutiour verde esbatia as physionomias n'um tom neu t,ro, apagado : todas lhe eram desconhecidas. Olhou um momento uma mulher bonita, de vestido de Hêda amarella, que, enterrada n'uma poltrona baixa, o leque aberto sobre o co.llo, o olhar no chão, escutava com um vago sorriso um sujeito de pince-nez, de pulsos magrissimos, que gesticulava, muito chegado a ella ; junto da mesa, tres meninas cochichavam com rizinhos, os rostos unidos, examinando um album. Arthur, então, desejou tambem um album para folhear e os seus olhos voltavam-se an.,losamente para D. Joanna Coutinho, que de pé defronte do Padilhão, muito estirado no sofá entre vestidos de mulheres, ria, toda animada, com o l)raço passado pela cinta bonita d'uma menina loura o gordinha.



(continua...)

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