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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Viva o tio Osório! Saúde e fraternidade!

O dono da casa de pasto, o tio Osório, personagem obeso e contente da vida, com as mangas da camisa arregaçadas até aos ombros, os braços nus muito brancos apoiados sobre o balcão, a face balofa e finória, felicitou logo Gustavo de o ver de novo em Leiria. Achava-o mais magrito... Havia de ser das más águas de Lisboa e do muito paucampeche nos vinhos... E que havia dele servir aos cavalheiros?

Gustavo, plantando-se diante do contador, de chapéu para nuca, apressou-se a soltar o gracejo, que tanto o entusiasmara em Lisboa:

- Tio Osório, sirva-nos fígado de rei, com rim grelhado de padre! O tio Osório, pronto à réplica, disse logo, dando um raspão de rodilha sobre o zinco do contador:

- Não temos cá disso, Sr. Gustavo. Isso é petisco da capital.

- Então estão vocês muito atrasados! Em Lisboa era todos os dias o meu almoço... Bem, acabouse, dê-nos duas iscas com batatas... E bem saltadinho, isso!

- Hão-de ser servidos como amigos.

Acomodaram-se à "mesa dos envergonhados", entre dois tabiques de pinho fechados por uma cortina de chita. O tio Osório, que apreciava Gustavo, "moço instruído e de pouca troça", veio ele mesmo trazer a garrafa do tinto e as azeitonas; e limpando os copos ao avental enxovalhado:

- Então que há de novo pela capital, Sr. Gustavo? Como vai por lá aquilo?

O tipógrafo deu imediatamente seriedade ao rosto: passou a mão pelos cabelos, e deixou cair algumas frases enigmáticas:

Tremidito... Muito pouca-vergonha em política... A classe operária começa a mexer-se... Falta de união, por ora... Está-se à espera de ver como as coisas correm em Espanha... Há-de havê-las bonitas! Tudo depende de Espanha...

Mas o tio Osório, que juntara alguns vinténs e comprara uma fazenda, tinha horror a tumultos... O que se queria no país era paz... Sobretudo o que lhe desagradava era contar-se com espanhóis... De Espanha, deviam os cavalheiros sabê-lo, "nem bom vento nem bom casamento"!

- Os povos são todos irmãos! exclamou Gustavo. Quando se tratar de atirar abaixo Bourbons e imperadores, camarilhas e fidalguia, não há portugueses nem espanhóis, todos são irmãos! Tudo é fraternidade, tio Osório!

- Pois então é beber-lhe à saúde, e beber-lhe rijo, que isso é que faz andar o negócio, disse o tio Osório tranqüilamente, rolando a sua obesidade para fora do cubículo.

- Elefante! rosnou o tipógrafo, chocado com aquela indiferença pela Fraternidade dos Povos. Que se podia esperar, de resto dum proprietário e dum agente de eleições?

Trauteou a Marselhesa, enchendo os copos do alto, e quis saber o que tinha feito o amigo João Eduardo... Já se não ia pelo Distrito? O raquítico dissera-lhe que não havia despegá-lo da Rua da Misericórdia.

- E quando é esse casamento, por fim? João Eduardo corou, disse vagamente:

- Nada decidido... Tem havido dificuldades. E acrescentou com um sorriso desconsolado: - Temos tidos arrufos.

- Pieguices! soltou o tipógrafo, com um movimento de ombros, que exprimia um desdém de revolucionário pelas frivolidades do sentimento.

- Pieguices... Não sei se são pieguices, disse João Eduardo. O que sei é que dão desgostos... Arrasam um homem, Gustavo...

Calou-se, mordendo o beiço, para recalcar a emoção que o revolvia.

Mas o tipógrafo achava todas essas histórias de mulheres ridículas. O tempo não estava para amores... O homem do povo, o operário que se agarrava a uma saia para não despegar era um inútil... era um vendido! Em que se devia pensar não era em namoros: era em dar a liberdade ao povo, livrar o trabalho das garras do capital, acabar com os monopólios, trabalhar para a república! Não se queria lamúria, queria-se ação, queria- se a força! - E carregava furiosamente no r da palavra - a forrrça! agitando os seus pulsos magríssimos de tísico sobre o grande prato de iscas que o moço trouxera.

João Eduardo, escutando-o, lembrava-se do tempo em que o tipógrafo, doido pela Júlia padeira, aparecia sempre com os olhos vermelhos como carvões, e atroava a tipografia com suspiros medonhos. A cada ai os camaradas, troçando, davam uma tossezinha de garganta. Um dia mesmo, Gustavo e o Medeiros tinham-se esmurrado no pátio...

- Olha quem fala! disse por fim. És como os outros... Estás aí a palrar, e quando te chega és como os outros.

O tipógrafo então - que, desde que em Lisboa freqüentara um clube democrático de Alcântara e ajudara a redigir um manifesto aos irmãos cigarreiros em greve, se considerava exclusivamente votado ao serviço do Proletariado e da República - escandalizou-se. Ele? Ele como os outros? Perder o seu tempo com saias?...

- Está vossa senhoria muito enganado! - e recolheu-se a um silêncio chocado, partindo com furor a sua isca.

João Eduardo receou tê-lo ofendido.

(continua...)

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