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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Com um rosnar de espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as lajes sonoras, todos seguiram pela poterna da albarrã o Rico-homem - até o escadão de madeira que se empurrava contra a quadrela das barbacãs. E, quando o enorme velho surgiu no eirado, um silêncio pesou, tão ansioso, que se sentia para além do vergel o chiar triste e lento da nora e o latir dos mastins.

No terreiro, em frente à cancela gateada, o Bastardo esperava, imóvel sobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de Choro-Sol, onde as barbas aneladas, caindo nas solhas do arnês, rebrilhavam como ouro novo. Vergando o capelo de ouropel, saudou Tructesindo com gravidade e preito. Depois alçou a mão, que descalçara do guante. E num considerado e sereno falar:

- Senhor Tructesindo Ramires, nestas andas vos trago vosso filho Lourenço, que em lide leal, novale de Canta-Pedra, colhi prisioneiro e me pertence pelo foro dos Ricos-homens de Espanha. E de Canta-Pedra caminhei com ele para vos pedir que entre nós findem estes homizios e estas feias brigas que malbaratam sangue de bons Cristãos... Senhor Tructesindo Ramires, como vós venho de Reis. De D. Afonso de Portugal recebi a pranchada de Cavaleiro. Toda a nobre raça de Baião se honra em mim... Consenti em me dar a mão de vossa filha D. Violante, que eu quero e que me quer, e mandai erguer a levadiça para que Lourenço ferido entre no seu solar e eu vos beije a mão de pai.

Das andas, que estremeceram sobre os ombros dos besteiros, um desesperado brado partiu:

- Não, meu pai!

E hirto na borda do eirado, sem descruzar os braços, o velho Tructesindo retomou o brado - que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante e mais cavo:

- Meu filho, antes de mim, te respondeu, vilão!

Como se uma pontoada de lança lhe topasse o peito, o Bastardo vacilou na alta sela; e, colhido pelo repuxão das rédeas, o seu fouveiro recuou alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra a cancela. E Lopo de Baião, erguido sobre os estribos, gritava com ânsia, com furor:

- Sr. Tructesindo Ramires, não me tenteis!...

- Arreda, vilão e filho de viloa, arreda! - clamou soberbamente o velho, sem desprender osbraços de sobre o levantado peito, na sua rija imobilidade e teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.

Então o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da barbacã, rugiu, chamejante e rouco:

- Pois pelo sangue de Cristo e pela alma de todos os meus te juro, que se me não dás nesteinstante essa mulher que eu quero e que me quer, sem filho ficas, que por minhas mãos, diante de ti e nem que todo o Céu acuda, lhe acabo o resto da vida!

Já na mão lhe lampejava um punhal. Mas num ímpeto de sublime orgulho, um ímpeto sobrehumano, em que cresceu como outra escura torre entre as torres da Honra, Tructesindo arrancara a espada:

- Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, não vil como o teu, o ferro que atravessar ocoração de meu filho!

Furiosamente, com as duas possantes mãos, arremessou a espada, que rodopiou silvando e faiscando, se cravou no duro chão, onde tremia, ainda faiscava, como se uma cólera heróica também a animasse. E no mesmo relance, com um urro, um salto do ginete, o Bastardo, debruçado do arção, enterrara o punhal na garganta de Lourenço - em golpe tão cravado que o esguicho do sangue lhe salpicou a clara face, as barbas de ouro.

Depois foi uma bruta abalada. Os quatro besteiros sacudiram para o chão as andas, o corpo morto enrodilhado nos ramos - e atiraram pelo terreiro, como lebres em clareira, atrás do monge que se agachava agarrado às crinas da mula. Numa curta desfilada o Bastardo, os seis Cavaleiros, gritando o alarme, mergulharam no arraial que estacara ao Cruzeiro. Um tumulto remoinhou em torno ao devoto pilar. E em rodilhado tropel a mesnada desenfreou para a Ribeira, varou a velha ponte, logo enublada em pó e sumida para além do arvoredo, num fugidio coriscar de capelinas e de lanças apinhadas.

(continua...)

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