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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Fortúnio, jornalista. Mas o cabo rosnou: "Hum! É a mania de todos... Já apareceu aqui um que disse que era Fagundes Varella, outro que era o barão de Cotegipe e estava numa mona que não se lambia. Pois sim... Meta os homens no xadrez!" E lá fomos de cambulhada. Vociferei, jurei vingar-me, agarrei-me às grades, mas tive que resignar-me e fiquei com o Duarte entre uma negra bêbeda e um italiano feroz, que rangia os dentes e jurava por todas as madonas do Paraíso. Noite medonha! Às três horas entrou um sujeito que fora encontrado tentando arrombar um quiosque. Que lamúria! Esse não esteve calado um segundo. "Aí está, um homem vai com o seu dinheiro procurar alguma coisa para comer e vem um camarada dizendo que a gente está arrombando o quiosque... Eu, ladrão! Seja tudo pelo amor de Deus! Ai! Ai! E ainda por cima trazem a gente para um chiqueiro destes, cheio de pulgas... Isto até faz mal. É por estas e outras que há tanta febre amarela no Rio de Janeiro, pois não limpam o xadrez como é que a gente há de ter saúde? Um homem sai daqui direitinho para o Caju. Ai! Não é pela prisão... Quantos homens importantes têm sido presos? O Tasso... E o Tasso era um poeta supimpa! Eu só me zango porque me tomaram por gatuno. Há muita injustiça neste mundo de Deus! Um homem velho, doente, arrombando quiosques..." Depois implicou com o italiano que, cochilando, caía sobre ele: "Chega pra lá, mussiú..." E, de uma vez, atirou tamanho murro repelindo o dorminhoco que, se um soldado não acudisse, teria havido uma cena terrível, talvez sangue. Por fim, cansado, adormeci. Mas de manhã, quando tivemos de subir à presença do delegado, entre praças, no rol dos vagabundos, pela praia de Botafogo... Ah! Anselmo, quase morri de vergonha. Bondes passando, gente conhecida... Um horror! felizmente o subdelegado conhecia o Duarte, depois de muitos conselhos, mandou-nos em liberdade, mas eu fiquei sem quinze mil réis que levava.

— Furtaram-te?

— O escrivão pediu-mos sob promessa de liberdade. Estou morto. — Vamos dormir.

Estenderam os jornais, um ficou com o almanaque de Laemmert e, cobrindose com as largas folhas do Jornal do Commercio, adormeceram profundamente sobre a imprensa da capital.

Acordaram com o rumor das carroças que desciam a rua, aos trancos. Fortúnio estirou os braços preguiçosamente e saiu em exploração pela casa, com esperança de encontrar um banheiro; mas apenas existia uma bica avara e os dois resignaram-se a uma fusão ligeira, dizendo Anselmo, com mau humor, sacudindo a água do rosto, como quem sacode o suor:

— Bem se vê que esta casa foi construída pelo Teixeira. O monstro é tão entranhadamente patriota que, apesar de viver no Brasil há trinta e cinco anos, ainda tem no corpo terra de Portugal. Vejam isto — um prédio, com pretensões a palácio, sem banheiro.

Voltando ao quarto rasgaram as camas e os lençóis e Anselmo teve curiosidade de ver o que havia na lata.

— Há ali alguma coisa, Fortúnio; vamos ver?

— Cuidado! Talvez sejam ossos de algum parente do Teixeira.

— Se forem ossos põe-se ali um epitáfio. Vou ver... E, sem mais hesitar, abriu a lata, lançando aos ares uma exclamação ruidosa.

— Que é? Ouro?

— Roupa branca, meu amigo! Roupa branca: uma camisa, um par de meias, ceroulas e dois lenços... Ó maravilhoso achado! Eu devia hoje mudar o meu linho e foi Deus que me inspirou.

— Pois queres vestir a roupa do Teixeira, homem?!

— Certamente.

— Mas desapareces e vai ser um trabalho para eu encontrar-te. É uma loucura.

— Qual loucura! Antes de mais nada a limpeza. Bem vês que a minha camisa está ganhando uma cor neutra, porque não é branca nem cinzenta e esta é alva como a inocência. O diabo é a gola. Ora! Ao menos andarei folgado. E, atirando para um canto a camisa neutra, vestiu a do Teixeira que recendia suavemente a erva de S. João. Mas a gola...! Se Anselmo baixava a cabeça ia-se-lhe o queixo pelo abismo, se a levantava aparecia-lhe metade do peito. "Mas o ar penetrava livremente... era como se estivesse nu..." — disse o boêmio arregaçando as mangas compridas. Valente pescoço, sim, senhor! Valente pescoço!

— Anselmo, tira essa camisa, está indecente.

— Qual indecente! Uma camisa que cheira como o mês de Maio. Ó inveja, bem te conheço.

E vestiu as ceroulas. Fortúnio não se conteve — desatou a rir vendo o companheiro naquelas amplas bombachas. As meias cobriam-lhe o pés e ainda sobraram, como etc., etc., duas pontas indefinidas.

— O pé do Teixeira vale bem os versos do Silva. As meias parecem folhetins... com o "continua". Tanto melhor: quando estiver suja uma metade calço o resto.

— Não são meias, são inteiras.

— Em compensação, os lenços são magníficos.

— Mas tu pretendes sair assim, Anselmo?

— Por que não?

— Estás hediondo.

— Mas limpo.

— Procura um espelho.

— Qual espelho! O meu espelho é a consciência. Vamos tomar café. Se eu desaparecer na camisa, puxa-me.

— Não olhes para baixo.

— Por quê?

— Por causa da gola: podes ter a vertigem do abismo. — Descansa — olharei para diante.

Contendo o riso, Fortúnio saiu com o companheiro. Na rua várias pessoas olharam, com espanto, a imensa gola por onde o vento entrava uivando como por um túnel. Mas o boêmio, de cabeça alta, seguia para o Java, onde fez um almoço de assobio em companhia de Fortúnio.

Às duas horas estavam no Pascoal, discutindo a literatura do Norte, quando o Teixeira rompeu, fulo de ira:

— A minha roupa, senhor Fortúnio. Pois os senhores pedem-se o Grêmio, transformam-no em hospedaria e, ainda por cima, carregam a minha muda de roupa?

— Perdão, disse Fortúnio sisudo, eu não tenho a sua roupa.

— Eu não sei quem a tem, o caso é que ela desapareceu da lata. Então está com o outro.

(continua...)

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