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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

d'edade, D. Joanna Coatinho recebia ás terças-feiras : aquellas soirées constituinm a sua posição social. De vez em quando, com a prudencia de quem esperta uma lareira que tende a esmorecer, alguns amigos (Bento Correia dizia alguns devotos faziam publicar nos jorna€ Y.s — que as deliciosas tergas-feiras da Ex.ma Snr.a D. Joanna Coutinho continuavam a ser a grande attracção da sociedade elegante — Dizia-se gel almente que eram soirées ecleticas » : viam-se, effeito, nas tres salas seguidas, velhos fidalgos, novos deputados, jorna•stas, um ou outro banqueiro, algum ministro, poetas e estrangeiros. Ás vezos recitava-se ; quando do. avam as raparigas, va Isava-se ao som do piano ; e como seu marido conservava muitas relações na provincia, via-se tambem e LTar entre os grupos caracteristicamente lisboetas, algum sujeito embezerrado, de cores sadias, chegado do fundo da Beira ou das alturas de Traz-os-Montes, incommodado na casaca vincada das dobras da mala. O que sobretudo torna va estas 80irée8 estimadas era a disposição da mobilia e a moderação da luz : as cadeiras e os sofás, cober tos, de verão ou d'inverno, das suas housses de fustão branco, estavam dispostos de modo a formar retiros favoraveis á intimidt de d'um grupo ou d'uma coterie, recantos obscuros, excellenteg para o dialogo murmurado d'um par sentimental. Ás vezes, via-se assim, n'um canto mal alumiado, um peitilho de ca, misa muito chegado a um leque aberto : — era um escandaloziuho em plena funcção, como dizia o ma,• ligno Xavier ; otitras vezes, d'uma d'aquellas alcovas — Bento Correia dizia, impudentemente, as alcovas de D. Joanna » — via-se erguer um sujeito, com o rosto muito serio, entumecido, escarlate, batendo as palpebras, como um homem mal acordado e a quem se desejaria perguntar : fez a sua somneca, hein ? — As luzes, lampadas Carcel de globo fosco, com fortes abats-jours, concentravam toda a claridade no meio d.a sala, sobre innocentes albuns e honestas vistas stereoscopicas, deixando junto ás paredes uma zona de sombra adoravel : assim não era necessario ág senhoras, como se dizia, puxar muito á toilette » : ligeiras modificações d'enfeites, no mesmo vestido, bastavam durante um trimestre ; além d'isso, a penumbra favoreceia os rostos muito pintados e as bellezas decahidas tomavam, n'aquelle esbatido doce de tons neutros, um encanto imprevisto.

Por isso D. Joanna Coutinho era muito estimada. Apesar de ser casada com um velho monotono e passivo e de ter, com os seus esplendidos olhos negros, a sua alta estatura airosa, inspirado um bonito par de paixões era honesta. Tinha grandes amizades femininas : andava ás vezes durante um inverno inteiro com alguma rapariga que ninguem conhecia, desentranhada dos fundos neutros da burguezia, e que ella trazia a seu lado no landau, installava no melhor logar do seu camarote em S. Carlos ou no centro da sua sala, ás terças-feiras, cocando-a sempre com olhos brilhantes, erguendo-se de repente para lhe ir murmurar um segredo, com rizinhos quentes, muito zelosa dos Iseus olhares, dos seus apertos de mão. Depois, no inverno seguinte, outra favorita reinava » ; as suas creadas tinham a reputagão de bonitas e os rapazes costumavam, ao entrar, demorar-se nos corredores, tirando o paletot devagar, na esperança de entrevêr algum dos rostinhos maganos das escravas de D. Joanna ». Estas circumstancias davam logar a sorrisos malignos : chamava-se-lhe, rindo : D. Juanna. Mas ella era tão amavel, tinha um sorriso tão bom, os seus apertos de mão faziam-lhe tilintar os braceletes d'um modo tão attrahente—sempre tão prompta a servir d'empenho a um ministro, a organisar um bazar de caridade, a reunir um publico para a leitura d'um poema triste, que — como dizia Bento Correia — todo o mundo tinha a caridade de não aprofundar ».

Seu marido, de resto, parecia contente e orgulhoso d'ella. Era um homemzito amarello e silencioso, a quem os convidados, ao entrar, davam um aperto de mão molle e as senhoras mostravam os dentinhos n'um sorriso curto ; depois, não se reparava mais n'elle. Muito methodico, muito economico, toda a noite errava subtilmente pela casa, arranjando uma cadeira, diminuindo no corredor um bico de gaz, levantando um paletot cahido. Di Lia-se geralmente que soffria d'um aneurisma : dous sujeitos, ambos empreg ados no Ministerio do Reino, ambos graves, seguram com impaciencia a marcha da, enfermidade, estudando-lhe a amarellidão, os cangaços, na esperança de ainda um dia gozarem os dez contos de réis de renda da viuva. Dizia-se porém que, morto o marido, D, Joanna Coutinho se retiraria a um convento — on.de o numero e a edade das educandas satisfariam amplamente as suas necessidades de ternura feminina.

Davam nove horas no relogio do corredor quan•• do Meirinho e Arthua entraram, para despir os paletots, n'um pequeno gabinete alumiado por ser pentinas, ao lado d'um antigo tremó de provin cia. Arthur, muito nervoso, encharcado d'agua de colonia, hirto na sua casaca, com uma compressão de medo no estomago, calçava, um pouco tremulo, as luvas côr de palha, quando ouviu, sahindo d'uma sala proxima, um zurrar clamoroso de jumento ! Voltou-se, espantado, para Meirinho . . . Mas este apenas sorriu, alteou o peitilho, penteou cuidadosamente ao espelho a bella barba e disse :

—É perfeito, hein ?

(continua...)

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