Por Eça de Queirós (1900)
Mas, quando Ordonho ofegante se apressava para a Alcáçova, encontrou no pátio Tructesindo Ramires - que, na irada impaciência daquelas delongas do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o comprido brial de lã verde-negra, que recobria a vestidura de malha, as suas barbas rebrilhavam, mais brancas, atadas num grosso nó como a cauda dum corcel. Do cinturão tauxiado de prata pendia a um lado o punhal recurvo, a buzina de marfim - ao outro uma espada goda, de folha larga, com alto punho dourado onde cintilava uma pedra rara trazida outrora da Palestina por Gutierres Ramires, o de Ultramar. Um sergente conduzia sobre uma almofada de couro os seus guantes, o seu capelo redondo, de viseira gradada, como usara El-Rei D. Sancho; outro carrecava o imenso broquel, da forma dum coração, revestido de couro escarlate, com o Açor negro rudemente pintado, esgalhando as garras furiosas. E o Alferes, Afonso Comes, seguia com o guião enrolado na funda de lona.
Com o velho Rico-homem descera D. Garcia Viegas, e os outros parentes do Solar - o decrépito Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santarém, torcido pelos reumatismos como a raiz de um roble, e arrimando os passos trêmulos, não a um bastão, mas a um chuço; o formoso Leonel, o mais moço dos Samoras de Condufe, o que matara os dois ursos dos brejos de Cachamuz e que tão bem trovava; Mendo de Briteiros, o das barbas vermelhas, grande queimador de bruxas, ledo arranjador de folgares e danças; e o agigantado Senhor dos Paços de Avelim, todo coberto, como um peixe fabuloso, de escamas que reluziam, Como o sol se acercava da margela do Poço grande, marcando a hora da arrancada sobre Montemor - já, dos fundos alpendres que escondiam os campos do tavolado, os cavalariços puxavam os ginetes de guerra, com as suas altas selas pregueadas de prata, as ancas e os peitos resguardados por coberturas de couro franjado que rojavam nas lajes. Por todo o Castelo se espalhara que o Bastardo, depois da lide fatal aos Ramires, correra de Canta-Pedra, ameaçava a Honra; - e debruçados dos passadiços que ligavam a muralha aos contrafortes da Alcáçova, ou metidos por entre os engenhos de arremesso que atulhavam as corredouras, os moços da ucharia, os servos das hortas, os vilões acolhidos para dentro das barbacãs, espreitavam o Senhor de Santa Irenéia e aqueles Cavaleiros fortes, com ansiedade, tremendo do assalto dos de Baião e dessas horrendas bolas de ferro, cheias de fogo, que agora as mesnadas Cristãs arrajavam tão destramente como as bordas Sarracenas. - No entanto com a sua gorra esmagada contra o peito, Ordonho, arfando, apresentava a Tructesindo o recado do Bastardo:
- É Cavaleiro moço, não traz credência... O Sr. Bastardo espera ao Cruzeiro. - E pede que oatendais da quadrela das barbacãs...
- Que se acerque, pois! - gritou o velho. - E com quantos queira dos vilões que o seguem!
Mas Garcia Viegas, o Sabedor, sempre avisado, com a sua esperta mansidão:
- Tende, primo e amigo, tende! Não subais vós à tranqueira antes que eu me assegure se Baiãonos vem com arteirice ou falsura.
E, entregando a sua pesada lança de faia a um donzel, enfiou pela escada soturna da Torre albarrã. Em cima, no eirado, sussurrando um chuta! chuta! à fila de besteiros que guarnecia as ameias, atenta e com a besta encurvada - penetrou no miradouro, espiou pela seteira. O arauto de Baião galopara para o Cruzeiro, que uma selva movediça de lanças rodeava coriscando. E curto recado lançou - porque logo, no seu fouveiro acobertado por uma rede de malha acairelada de ouro, Lopo de Baião despegou do denso troço de Cavaleiros com a viseira erguida, sem lança ou ascuma de monte, e ociosas sobre o arção da sela mourisca as mãos onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate. Depois, a um toque arrastado de buzina, avançou para as barbacãs da Honra, vagarosamente, como se acompanhasse um saimento. Não movera o seu pendão amarelo e negro. Apenas seis infanções o escoltavam, também sem lança ou broquei, com sobrevestes de pano roxo sobre os saios de malha. Atrás quatro alentados besteiros carregavam aos ombros umas andas, toscamente armadas com troncos de árvores, onde um homem jazia estirado, como morto, coberto, contra o calor e os moscardos, por leves folhagens de acácia. E um monge seguia numa mula branca, segurando misturadamente com as rédeas um crucifixo de ferro, sobre que pendia a orla do seu capuz e uma ponta de barba negra.
Da seteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a face do homem estendido nas andas, o Sabedor adivinhou Lourenço Ramires, o doce afilhado que tanto amara, que tão bem ensinara a terçar lanças e a treinar falcões. E cerrando os punhos, gritando surdamente "Bem prestos! Besteiros, bem prestos!" - desceu a escura escadaria, tão arremessado pela cólera e pela mágoa que o seu elmo cavamente bateu contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os Cavaleiros parentes.
- Senhor primo! - bradou. - Vosso filho Lourenço está diante das barreiras da Honra deitadosobre umas andas!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.