Por Coelho Neto (1890)
— Perdão, gostamos de versos, mas detestamos essas coisas que o senhor fez com o propósito criminoso de destruir a obra do nosso esforço.
— Como?!
— Como!? Dando cabo da paciência dos sócios. Olhe, ali naquele quarto há dois dormindo a sono solto, aqui dormiram todos, menos eu porque queria ver até onde ia a sua coragem: foi até ao canto segundo e iria ao décimo se não protestássemos. Ora, meu amigo, ao menos por condescendência...
— Vá ser poeta assim para o diabo! — rosnou o Moraes.
— Meia resma de papel!
— Mas eu pedi licença.
— Pediu licença para ler um poema, mas não disse que era um absurdo, uma cacaria métrica.
— São alexandrinos.
— Alexandrões! Há versos ai que têm mais pés do que uma escolopendra. Senhor Presidente, meus senhores, boa noite!
Diante da disposição do Neiva o presidente suspendeu a sessão.
Para Fortúnio e Anselmo o Grêmio foi uma instituição providencial: não lhes deu glórias literárias, mas que sonos magníficos ali dormiram os dois! Certa noite, depois de uma tumultuosa sessão, como chovesse a cântaros, foram os dois entender-se com o Teixeira, chamado o "mar Cáspio", título alusivo à carambina que lhe caía da cabeça branqueando-lhe o casaco, para que lhes permitisse ficar em um dos quartos, que era chamado o arquivo e onde apenas havia jornais, um almanaque de Laemmert e uma Igta pequena a um canto. O Teixeira, que era o zelador do Grêmio, não o queria ver transformado em albergue noturno e resmungou. Mas os dois boêmios, com argumentos fortes e pondo-se logo à vontade, convenceram-no. O arquiteto saiu recomendando o maior cuidado e que não acendessem cigarros com os preciosos autógrafos que havia na pasta.
— Não há dúvida, Teixeira: dormiremos tranqüilamente e, se não houver um terremoto, hás de encontrar amanhã a casa como nola confias e Deus no céu levará ao teu ativo dois sonos repousados que vão dormir um poeta e um prosador.
— E de manhã, quando saírem, puxem a porta.
— Puxaremos a porta, Teixeira. Vai com Deus!
— Até amanhã.
— Até amanhã.
Sós, com todo o gás da casa aceso, sentaram-se nas cadeiras dos "imortais" e Fortúnio, acendendo um cigarro, estirando as pernas, rompeu o silêncio.
— Ora muito bem. Já é alguma coisa a literatura: fornece hospedagem. Graças ao nosso talento temos uma casa para dormir. Verdade é que não há cama, mas também Roma não se fez em um dia. Contentemo-nos com o quarto, amanhã virá o resto.
— Mas, a propósito, onde vamos dormir...?
— No chão.
— Com este frio!?
— Temos ali jornais, podemos forrar o soalho com jornais.
— E para nos cobrirmos?
— O Jornal do Commercio é um magnífico lençol.
— Então vamos arranjar isso, porque eu estou a cair de sono.
— E eu também, disse Fortúnio: passei ontem uma noite de cão.
— Onde?
— Na praia de Botafogo.
— Em casa de quem?
— Numa estação de policia.
— Foste dormir em uma estação!?
— Fui, não: levaram-me.
— Por quê? Que fizeste?
— Eu? Nada, mas o Duarte é louco. Era uma hora da madrugada, íamos os dois pela rua de S. Clemente, quando o Duarte viu uma barrica abandonada. Quis fazer de Diógenes e pôs-se a rolar a barrica e teria ido com ela ao Jardim Botânico se um soldado não lhe embargasse o passo. Nós, para dizer a verdade, não estávamos muito direitos e começamos a discutir com a polícia e o resultado da discussão foi o homem zangar-se ameaçando-nos com o rifle. Diante da atitude bravia do permanente, Duarte, que não é mole, espalhou-se e atirou tal cabeçada que o soldado virou de pernas para o ar e nos... é por aqui! Mas o homem levantouse e, apitando, lançou-se desesperadamente atrás de nós e, quando íamos tomando um bonde que passava, fomos agarrados. Ah! Meu amigo, que noite! Na estação protestei, quis resistir, mas havia tantas espingardas... Quando me pediram o nome tive uma esperança e disse com arrogância:
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.