Por Eça de Queirós (1900)
Na livraria retomou com apetite, depois de lhes sacudir a poeira, as tiras da Novela sobre que emperrara, naquele atarantado lance de susto e alarme - quando o Vílico, o velho Ordonho, reconhecia o pendão do Bastardo surgindo à borda da ribeira do Coice entre o coriscar de lanças empinadas, passando a antiga ponte de madeira, e, um momento sumido na verdura dos álamos, de novo avançando, alto e tendido, até o rude Cruzeiro de pedra de Gonçalo Ramires o Cortador.. O gordo Ordonho então, atirando o brado de - "Prestes, prestes! que é gente de Baião!" -, descambava pelo escadão da muralha como um fardo que rola.
No entanto Tructesindo Ramires, no empenho de aprestar a sua mesnada e abalar sobre Montemor, regera já com o Adail a ordem da arrancada, mandando que as buzinas soassem mal o sol batesse na margela do Poço grande. E agora, na sala alta da Alcáçova, conversava como seu primo de Riba-Cávado e costumado camarada de armas, D. Garcia Viegas - ambos sentados nos poiais de pedra duma funda janela, onde uma bilha d'água com o seu púcaro refrescava entre vasos de manjericão. D. Garcia Viegas era um velho esgalgado e ágil, de escuro carão rapado, com uns miúdos olhos coruscantes - que merecera a alcunha de Sabedor pela viveza e suculência do seu dizer, as suas infinitas manhas de guerra, e a prenda de falar latim mais doutamente que um Clérigo da Cúria, Convocado por Tructesindo, como os outros parentes de solar, para engrossar a mesnada dos Ramires em serviço das Infantas, correra logo a Santa Irenéia fielmente com o seu pequeno poder de dez lanças - começando por saquear no caminho a herdade de Palha-Cá, dos de Severosa, que andavam com pendão alto na Hoste Real contra as Donas oprimidas. Tão rijamente se apressara que, desde a madrugada, apenas comera sobre a sela, em Palha-Cá, duas rodelas dos chouriços roubados. E com a sede da afogueada correria, ainda na emoção de tão amarga nova, a derrota de Lourenço Ramires seu afilhado, novamente enchia d'água o púcaro de barro - quando pela porta da sala de armas, que três cabeças de javali dominavam, rompeu o velho Ordonho esbaforido:
- Sr. Tructesindo! Sr. Tructesindo Ramires! o Bastardo de Baião passou a Ribeira, vem sobrenós com grande troço de lanças!
O velho Rico-homem saltou do poial. E arremessando a mão cabeluda, cerrada com sanha, como se já pela gorja empolgasse o Bastardo:
- Pelo sangue de Cristo! em boa hora vem que nos poupa caminho! Hem, Garcia Viegas? Acavalo e sobre ele...?
Mas, rente aos trôpegos calcanhares de Ordonho, correra um Coudel de Besteiros, que gritou dos umbrais, sacudindo o capelo de couro:
- Senhor! Senhor! A gente de Baião parou ao Cruzeiro! E um Cavaleiro moço, com um ramoverde, está diante das barbacãs, como trazendo mensagem...
Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as lajes, indignado com tal embaixada mandada por tal vilão... - Mas Garcia Viegas, que dum sorvo enxugara o púcaro, recordou serenamente e lealmente os preceitos:
- Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e lei de aquém e de além serras, sempremensageiro com ramo se deve escutar...
- Seja pois! - bradou Tructesindo. - Ide vós fora às barreiras com duas lanças, Ordonho, e sabeido recado!
O Vílico rebolou pela denegrida escada de caracol até ao patim da Alcáçova. Dois acostados, de lança ao ombro, recolhendo de alguma rolda, conversavam com o armeiro, que sarapintara de amarelo e escarlate cabos de ascumas novas e as enfileirava contra o muro para secarem.
- Por ordem do Senhor! - gritou Ordonho. - Lança direita, e comigo às barbacãs, a recebermensagem!...
Ladeado pelos dois homens que se aprumaram, atravessou as barreiras; e pelo postigo da barbacã, que uma quadrilha de besteiros guardava, saiu ao terreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem relva ou árvore, onde se erguiam ainda as traves carcomidas duma antiga forca, e se amontoavam agora, para os consertos da Alcáçova, ripas de madeira, e grossas cantarias lavradas. Depois, sem arredar do umbral, empinando o ventre entre os dois acostados, bradou ao moço Cavaleiro, que esperava sob o rijo sol, sacudindo os moscardos com o seu ramo de amoreira:
- Dizei de que gente sois! e a que vindes! e que credência trazeis!...
E como arqueara logo a mão inquieta sobre a orelha - o Cavaleiro, serenamente, entalando o ramo entre o coxote e o arção, arqueou também os dois guantes reluzentes de escamas na abertura do casco, bradou:
- Cavaleiro do solar de Baião!... Credência não trago que não trago embaixada... Mas o Sr. D. Lopo ficou além ao Cruzeiro, e deseja que o nobre Sr. da Honra, o Sr. Tructesindo Ramires, o escute do eirado da barbacã...
O Vílico saudou - recolheu pela poterna abobadada da torre albarrã, murmurando para os dois acostados:
- O Bastardo vem a tratar o resgate do Sr. Lourenço Ramires...
Ambos rosnaram:
- Feio feito.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.