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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

A boemia parecia haver emigrado — só o Neiva e o Lins apareciam. Ruy Vaz anunciava um romance. Havia também abandonado, não por gosto, o palacete das Laranjeiras, o amorável e penseroso arvoredo e os jantares pantagruélicos e vivia num sótão modesto com a sua musa e um cachimbo. Fortúnio também andava afastado. Bivar, com idéias científicas, ia, de quando em quando, dar uma vista de olhos ao anfiteatro e compunha poemetos. O Duarte, sempre apaixonado, contava a toda gente os seus infortúnios. O Moraes e o Artur laboravam. A Vida Moderna, em luta aberta com a Semana, saía aos sábados, tremenda, com a sua gravura pantafaçuda e os formidáveis artigos do poeta da Tarântula.

Estava travada a batalha, e, uma tarde, como se encontrassem dois grupos num botequim, correu copiosamente o caldo de cana que foi o hidromel do festim espiritual, e, diante dos burgueses aterrados, poetas de um e do outro partido recitaram, como em Wartburgo quando os bardos, tendo à frente o grande Wolfran, empenharam-se na grande luta lírica.

O Moraes, assomado, lembrava aos do seu bando o que deviam recitar e Fortúnio, com uma voz branda, disse uns versos repassados de melancolia, o Alberto respondeu-lhe com um soneto admirável. Moraes ergueu-se e os alexandrinos fortes da Guerra atroaram com o fragor de catapultas. Outro poeta bucólico veio trazendo por uma rechã, ao romper do dia, um carro de bois rangendo aos solavancos e Anselmo frenético, com os olhos despedindo raios, arregaçando as mangas do casaco, despejou sobre a mesa a sua cornucópia helênica e, de mistura com pastores que sopravam syrinx, saíram hoplitas e deuses, hetéros e pallakai, filósofos e poetas, Eschylo às voltas com Aristeu, Menandro de braço com a lúbrica Lycenion, Laís e Minerva, as bacantes e as coéforas, as eumenides e as tesmofórias e às cinco e meia da tarde, encharcados de caldo de cana, abalaram triunfalmente os daquele Parnaso onde havia um moinho de café e um homenzinho, corcunda como Thersito, que apregoava bilhetes de loteria.

A vitória ficou indecisa, mas o Moraes, querendo dar uma batalha decisiva, no número seguinte da Vida Moderna, atirou-se, com a fúria de um Ajax, sobre um dos grandes poetas do outro lado e desancou-o.

A resposta seria violenta se houvesse saído, mas o jornal contrário apareceu calmo, sem referir-se à questão, e os da Vida Moderna entoaram o péan da vitória.

CAPÍTULO XXI

Por esse tempo o Grêmio de Letras e Artes, que já havia conseguido reunir no seu seio oito sócios dispostos a tudo, anunciou a segunda sessão. À noite, onze letrados assinaram o livro de presença e o presidente declarou que ia dar começo aos trabalhos. Fez-se um grande silêncio e foi lida a ata da sessão anterior. Logo em seguida um poeta de Niterói, já avô, pediu a palavra e, desatando um grande embrulho, anunciou a leitura de um poema.

Um calafrio percorreu a sala. Vagarosamente, o relógio da Torre de S. Francisco bateu oito badaladas quando o venerável poeta disse, com uma voz circunspecta e o gesto sóbrio de quem vai tomar uma pitada: Canto primeiro...! Às dez e meia da noite, num silêncio fúnebre, o gênio, depois de haver engolido dois copos de água gelada, anunciou: Canto segundo. O Lins dormia profundamente; Duarte, recostado, fazia castelos; Moraes arrancava fios do bigode; o presidente estava sucumbido, um dos secretários havia abandonado a mesa e, ao fundo, o Teixeira, empoado de caspa como se tivesse sobre os ombros um arminho, passeava resmungando. À meia-noite a voz do poeta anunciou: Canto terceiro. Era demais!

O Neiva deu um salto feroz:

— Heim! Canto terceiro!? Não! Você está enganado.

O Moraes rugia e Fortúnio, muito calmo, estirou os braços bocejando.

— Vou-me embora! — disse o Moraes.

— Faltam apenas quatro cantos, explicou timidamente o poeta.

— Quatro cantos! — exclamou o Neiva. E o cavalheiro pensa que eu não tenho trabalho para ficar aqui até depois de amanhã às suas ordens? Ora, meu amigo.

— Mas eu estou com a palavra.

— O senhor está com a palavra e eu estou caindo de sono.

— Senhor presidente, decida: Os meus dignos consócios entendem que a hora vai muito avançada.

— A hora está correndo... para fugir do poema, disse Fortúnio.

E o poeta continuou:

— Peço a V. Exa. que me garanta a palavra para a sessão seguinte.

— Não apoiado! — exclamou o Neiva e outros bradaram:

— Não apoiado!

— Como não apoiado? É do regimento...

— Qual regimento. Para um caso como este só um regimento de polícia. Peço a palavra, Sr. Presidente.

Mas o presidente dormia e foi necessário que um dos secretários o sacudisse para que ele desse atenção ao Neiva que gesticulava, trepado em uma cadeira.

— Tem a palavra o Sr. Francisco Neiva.

— Sr. Presidente, peço a V. Exa. que suspenda a sessão. É mais de meianoite, as nossas famílias já devem estar alarmadas, e eu estou com fome. Não jantei ainda, saí da Ilha das Flores e vim logo para aqui. Mas se soubesse que havia uma cilada, palavra de honra: não me apanhavam.

— Cilada?!

— Pois não, Sr. Presidente: três cantos de um poema maior do que a paciência de um santo. É necessário que V. Exa. ponha cobro a tais escândalos. Se começam a fazer pilhéria como a de hoje, não dou nada pelo grêmio. Eu serei o primeiro a pedir demissão... Ah! Não há dúvida!

— Eu não sabia que os senhores não gostavam de versos.

(continua...)

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