Por Eça de Queirós (1900)
E então também o tomou a curiosidade de visitar esse claustro onde não entrara desde pequeno - quando ainda a Torre conservava as suas carruagens montadas e a romântica Miss Rhodes escolhia sempre o passeio de Craquede para as tardes pensativas de outono. Puxou a égua, transpôs o portal, atravessou o espaço descoberto que fora a nave - atulhado de caliça, de cacos, de pedras despegadas da abóbada e afogadas nas ervas bravas. E pela brecha dum muro a que ainda se amparava um pedaço de altar - penetrou na silenciosa crasta Afonsina. Só dela restam duas arcadas em ângulo, atarracadas sobre rudes pilares, lajeadas de poderosas lajes puídas que nessa manhã o sacristão cuidadosamente varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros arcos, avultam os sete imensos túmulos dos antiqüíssimos Ramires, denegridos, lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns pesadamente encravados no lajedo, outros pousando sobre bolas que os séculos lascaram. Gonçalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos arcos, recordando quando ele outrora e Gracinha pulavam ruidosamente por sobre essas campas, enquanto no pátio do claustro, entre as pilastras tombadas e a verdura das ruínas, a boa Miss Rhodes, agachada, procurava florinhas silvestres. Na abóbada, sobre o mais vasto túmulo, lá negrejava chumbada a espada, a famosa espada, com a sua corrente de ferro pendendo do punho, a folha roída pela ferrugem das longas idades. Sobre outro lá ardia a lâmpada, a estranha lâmpada mourisca, que não se apagara desde a tarde remota em que algum monge, com uma tocha de saimento, silenciosamente a acendera... Quando se acendera ela, a eterna lâmpada? Que Ramires jazeriam nesses cofres de granito, a que o tempo raspara as inscrições e as datas, para que nelas toda a História se sumisse, e mais escuramente se volvessem em leve pó sem nome aqueles homens de orgulho e de força?... Depois na ponta do claustro era o túmulo aberto, e ao lado, derrubada em dois pedaços, a tampa que o esqueleto de Lopo Ramires arrombara para correr às Navas de Tolosa e bater os cinco Reis mouros. Gonçalo espreitou para dentro, curiosamente. A um canto da funda arca alvejava um montão de ossos, limpos e bem arrumados! Esquecera o velho Lopo, na sua pressa heróica, esses poucos ossos, já despegados do seu esqueleto?... O crepúsculo cerrara, e com ele uma melancólica sombra que se adensava sobre as abóbadas da crasta, cobria de tristeza morta aquela jazida de mortos. Então Gonçalo sentiu a desolada solidão que o envolvia, o separava da vida, ali desgarrado, e sem socorro entre a poeira e a alma errante dos seus avós temerosos! E de repente estremeceu, no arrepiado medo de que outra tampa estalasse com fragor e através da fenda surgissem lívidos dedos sem carne! Repuxou desesperadamente a égua pelo muro desmantelado, nas ruínas da nave pulou para o selim, e varou num trote o portal, galgou o adro com ânsia - só sossegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancela do Caminho de Ferro aberta, e uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado de erva.
VIII
Ao fim da semana Gonçalo, que desde a visita a Santa Maria de Craquede arrastava o remorso incômodo da sua preguiça, do tão longo abandono da Novela - recebeu de manhã, ao sair do banho, uma carta do Castanheiro. Era curta: - e declarava ao amigo Gonçalo que, se em meado de outubro não chegassem a Lisboa três Capítulos do original, ele, com pesar seu e da Arte, publicaria no primeiro número dos Anais, em vez da Torre de D. Ramires, um drama do Nuno Carreira num ato, intitulado Em Casa do Temerário... "Apesar de drama e de fantasia (acrescentava), convém à índole erudita dos Anais porque este Temerário é Carlos o Temerário, e a ação toda, fortemente tecida, se passa no Castelo de Peronne, onde se encontram nada menos que Luís XI de França, e o nosso pobre Afonso V, e Pero de Covilhã que o acompanhava, e outros figurões de rija estatura histórica. Imagine!... Está claro, o chic supremo seria Tructesindo Mendes Ramires contado pelo nosso Gonçalo Mendes Ramires! Mas, pelo que vejo, esse chic supremo está impedido por uma indolência suprema. Sunt Lacrymae Revistarum!"
Gonçalo atirou a carta, gritou pelo Bento:
- Leva para a livraria chá verde, forte, com torradas. Hoje só almoço tarde, às duas... Talvez nemalmoce!
E, enfiando o roupão de trabalho, decidiu amarrar à banca, como um cativo ao remo, até que rematasse esse difícil Capítulo III, onde ressaltava o bárbaro e sublime rasgo do avô Tructesindo. Não, que diabo! não lhe convinha perder a aparição da Novela em tão proveitoso momento, nas vésperas da sua chegada a Lisboa, quando para a influência política e para o prestigio social necessitava desse brilho que, segundo o velho Vigny, "uma pena de aço acrescenta a um elmo dourado de Fidalgo..." Felizmente, nessa luminosa manhã em que as águas da horta fartamente cantavam, ele sentia também a veia borbulhando, contente em se soltar e correr. Depois da visita à crasta de Craquede a sua imaginação concebia menos enevoadamente os seus avós Afonsinos: e como que os palpava enfim no seu viver e pensar desde que contemplara os grandes túmulos onde se desfaziam as suas grandes ossadas.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.