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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

O governo baiano afirmou "serem mais que suficientes as medidas tomadas para debelar e extinguir o grupo de fanáticos e não haver necessidade de reforçar a força federal para tal diligência, pois as medidas tomadas pelo comandante do Distrito significavam mais prevenção que receio"; e aditava "não ser tão numeroso o grupo de Antônio Conselheiro, indo pouco além de quinhentos homens etc."

Contravinha o chefe militar entendendo ter a repressão legal vingado o círculo das diligências policiais, cumprindo-lhe não mais prender criminosos, "mas extirpar o móvel de decomposição moral que se observava no arraial de Canudos em manifesto desprestígio à autoridade e às instituições", acrescentando que a força federal deveria seguir bastante forte para se subtrair à contingência de "retiradas prejudiciais e indecorosas". O governo estadual, porém, agindo dentro do elástico art. 6.° da Constituição de 24 de fevereiro, cerrou a controvérsia levantando o espantalho de uma ameaça à soberania do Estado, e repelindo a intervenção que lhe implicava incompetência para manter a ordem nos seus próprios domínios. Deslembrara-se que em documento público se confessara desarmado para suplantar a revolta e que, apelando para os recursos da União, justificava, naturalmente, a intervenção que procurava encobrir.

Vinha serôdio o falar em soberania apisoada pelos turbulentos impunes. Ademais ninguém se iludia ante a situação sertaneja. Acima do desequilibrado que a dirigia estava toda uma sociedade de retardatários. O ambiente moral dos sertões favorecia o contágio e o alastramento da novrose. A desordem local ainda, podia ser núcleo de uma conflagração em todo o interior do Norte. De sorte que a intervenção federal exprimia o significado superior dos próprios princípios federativos: era a colaboração dos Estados numa questão que interessava não já à Bahia, mas ao país inteiro.

Foi o que sucedeu. A nação inteira interveio. Mas sobre as bandeiras vindas de todos os pontos, do extremo norte e do extremo sul, do Rio Grande ao Amazonas, pairou sempre, intangível, miraculosamente erguida pelos exegetas constitucionais, a soberania do Estado...

Para a resguardar melhor foi removido da Bahia o chefe da força militar, que traçara a sua atitude retilineamente pela lei. E somente depois disto a coluna do major Febrônio — até então oscilante entre Monte Santo e Queimadas e objetivando nas contramarchas as vacilações do governo — seguiu reforçada pela tropa policial e adstrita as deliberações do governo baiano. Perdera-se esterilmente o tempo — que o adversário aproveitara, aparelhando-se a um revide enérgico. Num raio de três léguas em roda de Canudos, fizera-se o deserto. Para todos os rumos e por todas as estradas e em todos os lugares, os escombros carbonizados das fazendas e dos pousos avultavam, insulando o arraial num grande círculo isolador, de ruínas. Estava pronto o cenário para um emocionante drama da nossa história.

TRAVESSIA DO CAMBAIO

I. Monte Santo. Triunfos antecipados.

II. Incompreensão da campanha. Em marcha para Canudos.

III. O Cambaio. Baluartes sine calcii linimenti. Primeiro recontro. Episódio trágico.

IV. Nos Tabuleirinhos. Segundo combate. A Legio Fulminata de João Abade. Novo milagre de Antônio Conselheiro. V. Retirada.

VI. Procissão dos jiraus.

CAPÍTULO I

MONTE SANTO

No dia 29 de dezembro entraram os expedicionários em Monte Santo.

O povoado de frei Apolônio de Todi ia, a partir daquela data, celebrizar-se como base das operações de todas as arremetidas contra Canudos. Era o que mais se avantajava por aqueles sertões em fora na direção do objetivo da campanha, permitindo, além disto, mais rápidas comunicações com o litoral, por intermédio da estação de Queimadas.

A tais requisitos aliavam-se outros.

Vimos-lhe em páginas anteriores a gênese tocante.

Não dissemos, porém, que, criando-o, o estóico Anchieta do Norte aquilatara bem as condições privilegiadas do local.

De fato, a vila — ereta no sopé da serrania de onde promana a única fonte perene da redondeza — contrasta, insulada, com a esterilidade ambiente. Decorre isto de sua situação topográfica. A sublevação de rochas primitivas que se alteiam aos lados, para o norte e para leste, levanta-se como anteparo aos ventos regulares, que até lá progridem, e torna-se condensador admirável dos escassos vapores que ainda os impregnam, graças ao resfriamento decorrente de uma ascensão repentina pelos flancos das serranias. Depõe-se, então, aqueles, em chuvas quase regulares, originando regime climatológico mais suportável, a dois passos dos sertões estéreis para onde rolam, mais secos, os ventos, depois da travessia.

(continua...)

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