Por Machado de Assis (1891)
-Falo seriamente. Já há muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver se descansa desta papelada infernal. É demais, Teófilo! Você mal se pode arranjar para uma visita. Passeio, é raro. Quase não conversa. Os nossos filhos apenas vêem seu pai porque aqui não se entra quando você trabalha. . .É preciso descansar; peço-lhe um ano de repouso. Olhe que sério. Vamos para a Europa em março.
-Não pode ser, balbuciou ele.
-Por que não?
Não podia ser. Era convidá-lo a sair da própria pele. Política valia tudo. Que também houvesse política lá fora, sim; mas que tinha ele com ela? Teófilo não sabia nada do que ia por fora, exceto a nossa dívida em Londres, e meia dúzia de economistas. Contudo, agradeceu à mulher a intenção da proposta
-Tu és boa.
E um sentimento vago de esperança restituía à voz do deputado a brandura que perdera naquela grande crise moral. Os papéis sopravam-lhe animo. Toda aquela massa de estudos aparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia. mais tarde ou mais cedo, o grelo brotaria e a árvore daria frutos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras diretas e próprias; mas só agora é que ele via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das explosões de cólera, de indignação, de desespero, das queixas de há pouco, ficou vexado. Quis rir, fê-lo mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com os filhos, que naquela noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que já andava no colégio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pai que queria ser ministro. Teófilo ficou sério.
-Meu filho, disse ele, escolhe outra cousa, menos ministro.
-Diz que é bonito, papai; diz que anda de carro com soldado atrás.
-Pois eu te dou um carro.
-Papai já foi ministro?
Teófilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a ocasião para mandar deitar os filhos.
-Já, já fui ministro, respondeu o pai beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho. Tu hás de ser capelão.
-Que é capelão?
-Capelão é cama, respondeu D. Fernanda; vai dormir, Nuno.
CAPÍTULO CLXXVI
Ao Almoço, no dia seguinte, Teófilo recebeu uma carta por uma ordenança. -Ordenança?
-Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho.
Teófilo abriu a carta, com a mão trêmula. Que podia ser? Tinha lido nos jornais a relação dos novos ministros; o gabinete estava completo. Não havia divergência de nomes. Que podia ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. Via uma claridade; percebeu que a boca sofreava um sorriso de satisfação,-de esperança, ao menos.
-Diga que espere, ordenou Teófilo ao criado.
Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se à mesa, calado, dando tempo a que o criado entregasse a carta à ordenança. Desta vez, como estava prevenido, ouviu as patas do cavalo, e logo depois a galope, rua fora e sentiu-se bem.
-Lê, disse ele
D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe às duas horas da tarde.
-Mas então o ministério...?
-Está completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros estão nomeados.
Não acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da última hora, e a necessidade urgente de a preencher.
-Há de ser alguma conferência política, ou talvez queira cor versar sobre o orçamento,- ou incumbir-me algum estudo.
Dizendo isto, para iludir a mulher, sentiu a probabilidade das hipóteses, e outra vez se abateu; mas três minutos depois, as borboletas da esperança volteavam diante dele, não duas, nem quatro, mas um turbilhão, que cegava o ar.
CAPÍTULO CLXXVII
D. FERNANDA esperou, cheia de ânsias, como se o ministério fosse para ela, e lhe viesse dar qualquer gosto, que não fosse amargo e complicado. Uma vez, porém, que satisfizesse o marido, tudo iria pelo melhor. Teófilo tornou às cinco horas e meia. Pelo aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mãos.
- Que há?
- Pobre Nanã! Aí vamos com a trouxa às costas. O marquês pediu-me instantemente que aceitasse uma presidência de primeira ordem. Não podendo meter-me no gabinete, onde tinha lugar marcado desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade política e administrativa do governo, assumindo uma presidência Não podia, em nenhum caso, dispensar o meu prestígio (são palavras dele), e espera que na Câmara assuma o lugar de chefe de maioria. Que dizes?
- Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda.
-Achas que podia recusar?
-Não.
-Não podia. Você sabe, não se podem negar serviços destes a um governo amigo; ou então deixa-se a política. Tratou-me muito bem o marquês; eu já sabia que era homem superior; mas que risonho e afável! não imaginas. Quer também que compareça a uma reunião, os ministros e alguns amigos, poucos, meia dúzia. Confiou-me já o programa do gabinete, em reserva...
-Quando saímos?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.