Por Coelho Neto (1890)
— Tem nove, falta uma. Baixou os olhos, de repente, erguendo a cabeça, exclamou: Mas espere, há um que tem onze, tira-se-lhe uma e passa-se para este e fica tudo arranjado.
— E... disse Anselmo que já havia lançado o título do artigo de fundo, em letra caprichosa e esbelta: Caveat!
— Vai escrever o artigo?
— Sim, vou.
— Então eu vou dar um giro; posso apanhar alguma noticiazinha fresca. Olhe, hoje há uma primeira. O senhor vai?
— Vou.
— Eu posso ir, se quiser... e faço a notícia. — Obrigado; eu vou.
O Franco foi debruçar-se à sacada e ficou a cantarolar. Por fim, resolvido, tomou o chapéu e saiu recitando:
Constança morena tu és a aurora
Do meu porvir magnânimo e sublime
Anselmo dedicou-se de coração ao jornal. Morava na rua Marquês de Abrantes, numa pensão nobre, em companhia do Steel, o antigo redator do Diário. Levantava-se muito cedo, tomava o seu banho e descia para a cidade, sentando-se imediatamente à mesa de trabalho. Escrevia o artigo de fundo, a Boemia, romance au jour le jour, a crônica do dia, redigia o noticiário e todas as seções; corrigia as notas que o Maia trazia da polícia e ainda passava os olhos pelas notícias do Franco, cuja ortografia era das mais complicadas. À noite estava derreado. Mas com que prazer, na manhã seguinte, abria o jornal e revia o seu trabalho, emoldurando a gravura central que ele sempre acompanhava de algumas palavras explicativas.
Os proprietários, entretanto, não pareciam satisfeitos, porque o jornal não tinha venda e era um trabalho para o agente conseguir um anúncio. O Franco, sempre a protestar contra a miséria: — "que não havia talento possível com aquela pingadeira", aparecia, às vezes, à noite, resmungando, com a papelada numa confusão horrível e, acumulando as notas, monologava:
— Qual! Quando não se está de sorte é isto... O meu número! O meu número!... Se eu tivesse feito o meu jogo tinha estourado a banca. Mas é isso, quando não se está de sorte...
Depois o diabo daquele cabula a chorar, a chorar. Detinha-se, cravava os cotovelos na mesa, e, com as faces nas mãos, ficava olhando perdidamente: Três vezes! Parece incrível! E eu no pequeno! Pedaço de burro! É bem feito. Mas qual! Quando não se está de sorte é assim mesmo. Estão aqui as notas.
— Houve alguma coisa?
— 0 29...
— Foi preso? — perguntou Anselmo julgando que ele se referia ao idiota que escandalizava a rua do Ouvidor com os seus impropérios.
Mas o Franco amuou:
— Qual preso! Deu três vezes e eu no 8.
— Ah! Na roleta...?
— Sim, mas não jogo mais, nem uma ficha. A roleta é um jogo besta. Afinal qual é a ciência da roleta? Nenhuma, é só questão de sorte. Há três dias que não ganho um vintém, é só perder, perder. Vou dar com o basta!
— Foi às secretarias?
— Fui; pois não estão ai as notas? Não houve nada. Amanhã sim, há despacho.
— Bom, vamos trabalhar.
— Eu vou dar uma volta pelos teatros.
Saiu. Às dez horas o Maia ia ao Diário Oficial e à meia-noite, quando o paginador, saciado, declarava que o jornal estava pronto, Anselmo saía lentamente, tomava um copo de leite no Java e ia cochilando no bonde até a porta de casa e, às vezes, passando pelo quarto dó Steel, ouvia palavras sussurradas, risinhos, estrépitos de beijos e lembrava-se de Amélia com voluptuosa saudade, mas tanto que repousava a cabeça no travesseiro adormecia pesadamente como um cavador.
Apesar de todos os esforços, o jornal não lograva impor-se ao favor público e, quinze dias depois de haver Anselmo assumido á redação, os proprietários, vendo que o café continuava a baixar, zombando dos artigos violentíssimos do redatorchefe, resolveram "suspender a cesta", como disse, com muito pitoresco e muita resignação, o Franco, quando recebeu o saldo.
Voltaram os dias difíceis. Forçado a abandonar a casa da rua Marquês de Abrantes, onde se achava tão confortavelmente instalado e podendo dispor do magnífico guarda-roupa do Steel, que era janota e franco posto que, algumas vezes, franzisse o nariz encontrando na rua do Ouvidor as suas calças cobrindo as pernas magras do companheiro, Anselmo partiu à aventura como o moço Perceval, não à conquista do santíssimo cálice, mas em busca de um teto e de uma sopa que o resguardasse da intempérie e lhe saciasse a fome.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.