Por Eça de Queirós (1900)
- Gosto, gosto muito de crianças, até de criancinhas de mama. As crianças são os únicos seresdivinos que a nossa pobre humanidade conhece. Os outros anjos, os de asas, nunca aparecem. Os santos, depois de santos, ficam na Bem-aventurança a preguiçar, ninguém mais os enxerga. E, para concebermos uma idéia das coisas do céu, só temos realmente as criancinhas... Sim, com efeito, prima, gosto muito de crianças. Mas também gosto de flores, e não sou jardineiro, nem tenho jeito para a jardinagem.
E D. Maria com uma faísca no olhar prometedor:
- Sossegue, que ainda vem a aprender!
Depois, para D. Ana, que se esquecera na contemplação do relógio:
- Achas que vão sendo horas? Então, se queres, entramos na Capela... Oh primo, veja se estáaberta.
Gonçalo correu, empurrou a porta da Capela. Depois acompanhou as duas senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares recobertos de uma cal áspera e crua - que recamava também as paredes lisas, apenas guarnecidas, na sua rígida nudez, por litografias de Santos dentro de caixilhos de pinho. Diante do altar as senhoras ajoelharam - a prima Maria enterrando a face nas mãos juntas como num vaso de Piedade. Gonçalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.
Depois voltou para o adro, acendeu um cigarro. E, pisando lentamente a relva, considerava quanto a viuvez melhorara D. Ana. Sob o negrume do luto, como numa penumbra que esfuma a grosseira deselegância das coisas, todos os seus defeitos se fundiam - os defeitos que tanto o horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito empinado, a ostentação de burguesa ricaça pinguemente repimpada na vida. Até já nem dizia - "o cavalheiro!" E ali, no adro melancólico de Craquede, certamente parecia interessante e desejável.
As senhoras desciam os dois degraus da Capela. Um melro esvoaçou na ramagem dos álamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos sérios de D. Ana, que o procuravam.
- Peço perdão de não lhes ter oferecido água benta à saída, mas a concha está seca...
- Jesus, primo, que Igreja tão feia! D. Ana arriscou, com timidez:
- Depois das ruínas e dos túmulos, até parece pouco religiosa.
A observação impressionou Gonçalo, como muito fina. E junto dela, demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus movimentos, pelo roçar do vestido, um aroma também fino, que não era o da horrenda água-de-colônia da botica do Pires. Em silêncio, sob a ramagem das carvalhas, caminharam para a caleche, onde o cocheiro se aprumara, bem estilado, tirando o chapéu. Gonçalo notou que ele rapara o bigode. E a parelha reluzia, atrelada com esmero.
- E então, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sítios?
- Sim, primo, mais uns quinze dias... A Anica é tão amável, quis que eu trouxesse os pequenos.
O que eles se têm divertido na quinta, não imagina! D. Ana murmurou, sempre séria:
- São muito engraçados, fazem muita companhia... Eu também gosto muito de crianças.
- Ai, a Anica adora crianças! - acudiu D. Maria com fervor. - O que ela atura os pequenos! Atéjoga com eles o mafarrico.
Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta pelo adro, mais lenta, com a D. Ana e o seu fino aroma, seria doce, naquele sossego da tarde que findava, tingida de tão lindas cores de rosa sobre os pinheirais escurecidos. Mas já o trintanário se acercava segurando a sua égua. E D. Maria, depois de admirar e acariciar a égua, chamou o primo discretamente - para saber a distância da Feitosa a Treixedo, a outra quinta histórica dos Ramires.
- A Treixedo, prima?... Cinco léguas fartas, com maus caminhos.
E imediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:
- Mas na estrada ultimamente andaram obras. E é muito bonito sitio, num alto, com um resto demuralhas... Treixedo era um castelo enorme... Na quinta há uma lagoa entre arvoredo antigo...
Oh! sítio delicioso para um pic-nic! D. Maria hesitou:
- É um pouco longe, veremos, talvez.
E como D. Ana esperava em silêncio - Gonçalo abriu a portinhola, tomou ao trintanário as rédeas da égua. D. Maria Mendonça, no seu contentamento por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente a mão do primo jurando "que ia apaixonada por Craquede!" D. Ana mal roçou os dedos de Gonçalo, acanhada e corando.
Sozinho, com a rédea da égua enfiada no braço, Gonçalo sorria. Na verdade, nessa tarde, D. Ana não lhe desagradara. Outros modos, outra singeleza grave, outra doçura na sua possante beleza de Vênus rural...
E aquela observação sobre a Capela, "pouco religiosa" depois das ruínas seculares do claustro, era uma observação fina. Quem sabe? Talvez sob carne tão sensual se escondesse uma natureza delicada. Talvez a influência doutro homem, que não o estupidíssimo Sanches, desenvolvesse na filha esplêndida do carniceiro qualidades de muito encanto... Oh, evidentemente, a observação sobre os túmulos e a sua religiosidade emanando da Lenda e da História - era fina.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.