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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— O senhor não agüenta. Olhe que esta folha come matéria que não é graça. A gente escreve, escreve, escreve e, quando pensa que tem muito, meu amigo, nem meia coluna. Vai ver. Sem um companheiro o senhor não faz nada.

— Quem sabe!

— Vai ver. Ah! Eu sei bem como se faz um jornal.

— Também eu.

— Pois não parece. O senhor arria... Se não chamar um companheiro não faz nada. Depois, meu amigo, quando a gente trabalha e vê cobre ainda vale a pena, mas aqui...?!

— Não pagam? — perguntou Anselmo sobressaltado.

— Ora! Uma ninharia. Eu ganho sessenta mil réis: e o senhor?

— Duzentos.

— Não é dinheiro.

— É pouco, concordo, mas, em todo o caso, já se vive.

— Qual! Um homem não vive decentemente no Rio de Janeiro com menos de quinhentos mil réis. Quanto pensa o senhor que eu gasto por mês? Pensa que eu vivo com esse cobre magro que levo daqui? Pois sim... Eu regulo gastar quatrocentos a quinhentos mil réis. Ah! Faço a minha feriazinha todas as noites: vou a um bico, vou a outro e pingando aqui, pingando ali, arranjo a minha feriazinha. Se eu só contasse com o jornal estava bem aviado.

— O senhor joga?

— Jogo, não por vício, por necessidade: sustento minha mãe e uma irmã. Só de casa pago quarenta mil réis e, com vinte hei de dar de comer a duas pessoas e roupa e calçado e botica, mais uma coisa, mais outra? Atirou uma cusparada por entre dentes, silvando. Faço a minha feriazinha e vou arranjando a vida. Não vale à pena ser jornalista no Brasil, não vale, repetiu meneando com a cabeça desoladamente. Gosto aí de uma moça, queria casar, mas tenho lá coragem de pedir a menina com essa bagatela? Eu, não! Quando casar quero que minha mulher apareça, não há de andar como muitas que conheço, isso não. Estou aqui esperando negócio melhor. Vim para a imprensa porque pensei que isto era outra coisa, mas logo que ache um empregozinho aí numa secretaria, mosco-me. Fincou os cotovelos na mesa e, com as mãos no rosto: O senhor não se dá com o ministro do império?

— Não.

— Mas conhece alguém que seja boa cunha para ele?

— Não, não conheço.

— É o diabo! Se eu arranjasse um lugarzinho de amanuense... Não digo que deixasse a imprensa, não, porque, enfim, isto é uma cachaça. Podia, de vez em quando, escrever o meu folhetim, o meu sonetozinho... mas contando com o ordenado certo no fim do mês. Deixe lá! Não há como a gente ser empregado do governo. No fim do mês o cobre está cantando e isso é que serve.

— E o senhor escreve folhetins?

— Não sabia?

— Não.

— Escrevo; e faço versos. Tenho aqui um soneto, se quer. E meteu a mão no bolso fundo do casaco.

Tirou um papelucho amarelado, abriu-o lentamente, pigarreou e leu, com grandes gestos largos:

À CONSTANÇA

Constança morena tu és a aurora Do meu porvir magnânimo e sublime. Se o meu verso o meu amor exprime Eu deixo aqui o meu verso, senhora.

Ontem de tarde quando a carpidora

Pomba rola, mais débil do que o vime,

Cantava a sua balada, ai! eu senti-me Capaz de acompanhá-la pelos campos afora.

Porque a vida é dor, loura criança

E eu choro tanto por ti que o meu peito Já está seco assim como o Saara.

Olha para mim, ó pálida Constança!

Vê como estou por dentro todo desfeito

Diz à minha dor duma vez: Ó dor, pára!

Dobrou o papelucho e, fitando Anselmo com ar triunfante, perguntou:

— Então, que tal?

— E o número de sílabas? E o conceito?

— Conceito! Para que isso?

— Pois não é uma charada novíssima?

O Franco bufou:

— Que charada! Trate sério. Pois eu vou lá fazer charadas à minha noiva, seu...? É um soneto e está muito bem feito. Não vejo por ai quem faça melhor.

Agora, se não quer publicar é outro caso. — Tem uns versos quebrados.

O repórter pôs-se de pé, como afrontado e, arrancando o soneto que havia descido ao bolso profundo, repetiu, com espanto:

— Versos quebrados... Onde? — Leia lá.

E o Franco com ênfase, declamou: Constança morena tu és a aurora

— Hum...

— Hum como? Então este verso está quebrado? Onde está a quebradura?

Constança morena tu és a aurora

— Vamos adiante.

Do meu porvir magnânimo e sublime.

— Voltou-se intimativo:

— Também está quebrado?!

— Não, mas é imbecil. Porvir magnânimo e sublime é asneira.

— Asneira...! Ora tire o cavalo da chuva. Então eu não sei português! Asneira, porque...! Vamos ao dicionário. Ó Maia, que é do dicionário português? O Maia esticou o beiço e bateu com uma das mãos na outra. É, já foi para o sebo... Pois se houvesse aqui um dicionário eu mostrava.

Se o meu o verso o meu amor exprime

Diga que está também errado; e pôs-se a contar pelos dedos: "S'o meu verso meu amor exprime..." Ficou pensativo, depois disse:

(continua...)

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