Por Eça de Queirós (1925)
— Ah, não me tenho esquecido. Eu até faço empenho . . . É necessario primeiro, naturalmente, — é a etiqueta — pedir-lhe auctorisag•ao. — mais baixo : — Lá vi, lá vi a noticia do Secado. Lá me fizeram o favor... fazem-me o favor de m'estimar...
Recostou-se com beatitude, cerrando os olhos, como para saborear a sympathia ambiente : — Que a festa esteve bonita, muito bonita Com franqueza — quanto
Arthur córou e disse :
— Vinte e duas libras, salgadinho !
Meirinho reflectiu um momento e com gravidade:
— Muito razoavel, muito razoavel ! E lá vi, lá vi : os calembours, muito bem acceites . . .
E dirigindo-se a um sujeito pesado, de beiços grossos e barba grisalha, que comia com uma gula lenta, um vago suor oleoso na pelle avelhada :
— Oh, Bento Correia, tem aqui um rival !
Ouvindo o nome de Bento Correia, uma celebridade antiga, quasi classica, jornalista, funccionario, Arthur fez-se escarlate.
Bento Correia voltou-se e com uma voz empastada, lenta, a bocca cheia :
— Então pertence á confraria
— Havia d'ouvir. No jantar do Melchior, leu-nos uma comedia . . . Oh, menino, d'estalar ! Calembours deliciosos !
Estava convencido da excellencia dos calembours desde que os vira celebrados n'um jornal.
Arthur, desesperado, envergonhado, acudiu :
— Não, não é só isso É um drama
— Não senhor, não senhor • f — exclamou Mei rinho, como para contradizer aquella modestia ex cessiva. — Muito bons ! Muito bons ! O dos OVOB é delicioso ! É digno do Figaro !
— Vamos lá a vêr o dos ovos — disse Bento Correia, com a sua tranquillidade mage«tosa e enfartada.
Meirinho citou-o, rindo, saboreando-o ainda. Bento Correia pareceu satisfeito e disse logo outro que tinha feito na vespera, na reunião da maioria ; repetiu o boeuj-à-ta-mode e contin uou fallando no seu tom espesso com um sujeito ao lado que es outava com os olhos, com o queixo, com toda a sua pessoa provinciana, n'uma admiração de discipulo, esgaravatando os dentes com a unha.
Arthur considerava a grossa face lu.strosa de Bento Correia, o seu olhar amortecido cahindo de sob uma palpebra pesada, a sua mastigação vagarosa, pensando, exasperado, que, para aquelle ho mem illustre, elle era apenas um fazedor de catemboure, um insignificante ! Era, de certo, a opinião
dos outros, de todos os que tinham lido o Seculo. Parecia-lhe vêr nos rostos clareados d'uma satisfação alvar, repleta, um desdem apathico pelas suas habilidades d'arranjador de graçolas Os lados nobres, elevados, do seu talento, desappareciam sob a popularidade d'uma facecia incidental ! E fôra o Roma, o canalha, que preparara aquella perfidia acabrunhadora ! Era o Meirinho, o imbecil, que a exagerava, a prodigalisava I Tinha-lhes odio ! O Meirinho sobretudo irritava-o, com o seu gesto de acariciar a bella barba clara, arrebitando o dedo minimo d'unha envemisada. O seu furor cresceu quando o Carvalhosa, que chegara taxe? o, com o aspecto sujo de quem vem de longe, a testa vermelha do vinco do chapéu, a cabelleira desleixada, lhe disse, sentando-se, com um tom negligente e superior :
— Então temos algum novo cate,mbour ?
Positivamente era uma conspiração ! Queriam diminuil-o, amesquinhal-o, reduzil-o ás proporções grotescas d'um chalaceador d'alman.ach ! Planos vagos atravessaram-lhe o espirito : fazer uma declaração nos jornaes, imprimir i.mmediatamente o drama ! Desejava sobretudo chicotear o Roma. E, furioso, ia erguer-se, quando appareceu o snr. Alvim, adiantando para a mesa a sua carinha velha, muito rapada, de rugas duras, com aquelles tons de greda livida que a caracterisagio e o gaz dão aos antigos comicos. Pequenino, subtil, errava todo o dia pelo Hotel, fazendo vagamente sortes de prestidigitação ás pessoas que encontrava, tirando um limão d'uma gola, um bogalho d'um nariz, empalmando um par de luvas, sob o olhar attonito d'algum provinciano ; estendia gostosamente a mão a uma placa de cinco tostões e o seu sorriso miudo tinha um servilismo lisonjeador ; dobrava-se em cortezias com a elasticidade d'um clown ; dizia-se que conhecia agiotas e que geria um lupanar : era geralmente estimado, era o maganão do Alvim b. Parecera desde o principio sympathisar com Arthur, achando n'elle uma passividade favoravel ás suas « sortes E apenas entrou, approximando-se na ponta das botas cambadas, seguido de olhares já divertidos, tirou-lhe do queixo, com uma surpreza comica, uma pêra d'inverno. Em redor, riram :
— Bravo, seu Alvim !
E o Bento Correia concluiu paternalmente :
— Isso é tirar uma pêra d'um queixo que a traz rapada !
Era um famoso calembour ! Causou deleite ! Aquelle diabo do Bento Correia ! . . Aquelle era de truz ! Meirinho, enthusiasmado, acotovelou Arthur : — Este é soberbo, homem ! Ponha-o na comedia, ponha-o na comedia !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.