Por Eça de Queirós (1900)
- É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. O primo ainda tem muitos parentes emFrança... Talvez também não saiba?
Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa história dos seus parentes de França - apesar de que o Videirinha os não cantara no fado!
- Então conte! Mas que seja história alegre!
Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô Ramires, Garcia Ramires, acompanhara nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho de El-Rei D. João I... A prima Maria sabia - o Infante D. Pedro, o que correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus Fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um ano inteiro na Flandres, com o Duque de Borgonha. Até se celebraram então festas maravilhosas, com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compêndios da História de França. Onde há danças há amores. Ao avô Ramires sobejavam imaginação e arrojo... Fora ele que diante de Jerusalém, no Vale de Josafá, lembrara que se erguesse um sinal para que o Infante e os seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juízo. Depois, naturalmente, belo mocetão de barba negra e cerrada à Portuguesa... Enfim casara com uma irmã do Duque de Cleves, uma tremenda Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde, através dessas ligações, uma avó Ramires, já viúva, casou também em França com o Conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Grão-Mestres de França, possuíam o mais formidável castelo da Europa, e... D. Maria bateu as palmas, rindo:
- Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Então oprimo que se gaba de não saber nada de fidalguias... Olhe como conhece pelo miúdo a história desses grandes casamentos! Hem, Anica?... É uma Crônica viva!
Gonçalo vergou os ombros, confessou que se ocupara de toda essa heráldica história por um motivo bem rasteiro - por miséria!...
- Por miséria?
- Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres.
- Conte! conte! Olhe, a Anica está ansiosa...
- Quer saber, Sra. D. Ana?... Pois foi em Coimbra, no meu segundo ano de Coimbra. Oscompanheiros e eu chegamos a não juntar entre todos um vintém. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrascão e as três azeitonas do dever... Um deles então, rapaz muito engraçado, de Melgaço, surdiu com a idéia estupenda de que eu escrevesse aos meus parentes de França, a esses Cleves, a esses Tancarvilles, senhores decerto imensamente ricos, e solicitasse, com desembaraço, um emprestimozinho de trezentos francos. D. Ana não conteve um riso, sinceramente divertido:
- Ai! tem muita graça!
- Mas não teve resultado, minha senhora... Já não existem Cleves, nem Tancarvilles! Todasessas grandes famílias feudais findaram, se fundiram noutras casas, até na Casa de França. E o meu Padre Soeiro, apesar de todo o seu saber genealógico, nunca conseguiu descobrir quem as representava com bastante afinidade para me emprestar, a mim parente pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquela penúria de Gonçalo, de tamanho Fidalgo, quase enternecera D. Ana:
- Ora estarem assim sem vintém! Quem soubesse... Mas tem graça! Essas histórias de Coimbratêm sempre muita graça. O D. João da Pedrosa, em Lisboa, também contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através dessa facécia de estudantes, descortinara outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. E imediatamente a estendeu diante de D. Ana com habilidade:
- Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França, tão ricas, tão poderosas, acabaram,desapareceram. E cá no nosso Portugalzinho ainda dura a Casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
- Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada. Acaba agora... Pois se eu nãocaso!
Então D. Maria recuou o magro peito - como se esse casamento do primo dependesse de doces influências, que convinha se trocassem bem chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito banco com grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de eflúvio. E sorria, quase languidamente:
- Ora não casa... Mas por quê, primo, por quê?
- Porque não tenho jeito, prima. O casamento é uma arte muito delicada que necessita vocação,gênio especial. As Fadas não me concederam esse gênio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a estragava.
D. Ana, como se outra idéia a ocupasse, puxara lentamente do cinto o relógio preso por uma fita de cabelo. E D. Maria insistia, recusava os motivos do Fidalgo:
- São tolices. O primo que gosta tanto de crianças...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.