Por Machado de Assis (1891)
Despediu-o e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras e desceu os degraus. Maria Benedita, que os espreitava do fundo veio ter com o marido, reteve-o pela mão, e ficou a ver o Rubião que atravessava o jardim. Não ia direito, nem apressado, nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho seco, vendo mil cousas no ar, mais galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo, e, em certo lance grotesco Maria Benedita não pôde suster o riso; Carlos Maria, porém, olhava plácido.
CAPÍTULO CLXXII
-MAS SE A QUEDA do ministério é verdadeira. disse ela, sabe você quem está ministro?
-Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos.
-Seu primo Teófilo. Nanã contou-me que ele andava com suas esperanças, e foi por isso que ficou este ano na Corte. Desconfiou, ou já se falava na saída do ministério; talvez desconfiasse. Não me lembra bem o que ela me disse; mas parece que entra.
-Pode ser.
-Olha, lá vai Rubião; parou, está olhando para cima, espera talvez a diligência ou o carro. Ele tinha carro. Lá vai andando...
CAPÍTULO CLXXIII
-Com que, O Teófilo está ministro! exclamou Carlos Maria.
E, depois de um instante
-Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me também ministro? -Se você gostasse, que remédio?
-De maneira que, por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria.
-Que hei de responder? pensou ela, escrutando o rosto do marido.
Ele, rindo
-Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro. -Justamente! exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos ombros.
Carlos Maria afagou-lhe os cabelos, e murmurou sério-Bernadotte foi rei, e Bonaparte imperador. Você queria ser a rainha-mãe da Suécia?
Maria Benedita não entendeu a pergunta nem ele a explicou. Para explicá-la seria mister dizer que possivelmente trazia ela no seio um Bernadotte; mas esta suposição significava um desejo, e o desejo uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra vez sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer tu escolheste a melhor parte..." E ela pareceu entender o sentido daquele gesto.
-Sim! sim!
O marido sorriu e tornou à revista inglesa. Ela, encostada à trona, passava-lhe os dedos pelos cabelos, muito ao de leve e caladinha para não perturbá-lo. Ele ia lendo, lendo, lendo. Maria Benedita foi atenuando a carícia, retirando os dedos aos poucos, até que saiu da sala, onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charlen Little, M.P., sobre a famosa estatueta de Narciso, do Museu de Nápoles.
CAPÍTULO CLXXIV
QUANDO RUBIÃO foi à casa de D. Fernanda, à tardinha, ouviu do criado que não podia subir. A senhora estava incomodada; o senhor estava com ela; parece que esperavam o médico. O nosso amigo não teimou, e retirou-se.
Era o contrário; era o senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas o criado não podia trocar o recado que lhe deram. Outro criado desconfiou, é certo, que o doente fosse ele e não ela, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto deles havia algum rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervalos de silêncio. Uma criadinha, que subira pé ante pé, desceu dizendo que ouvira lastimar-se o amo; provavelmente a senhora estava pendida. Embaixo, um palavrear surdo, ouvidos compridos, conjeturas, notavam que de cima não pedissem água, qualquer remédio, um caldo, ao menos. A mesa posta, o criado engravatado, o cozinheiro orgulhoso e ansioso... Justamente, um dos melhores jantares!
Que era? Teófilo tinha ainda o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um canapé, sem colete, olhos fixos. Ao p dele, sentada também, segurando-lhe uma das mãos, D. Fernanda pedia-lhe que sossegasse, que não valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto, chamava-o para si, queria que ele encostasse a cabeça ao ombro dela.
-Deixa, deixa, murmurava o marido.
-Não vale a pena, Teófilo! Pois agora um ministério... ? Valerá tanto um cargo de pouco tempo, cheio de desgostos, insultos, trabaIhos, para quê? Não é melhor a vida tranqüila? Vá que haja injustiça creio que sim, você tem serviços; mas será tamanha perda assim? Anda, querido, sossega; vamos jantar.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.