Por Coelho Neto (1890)
— Vou levá-la ao Calvário... e desabou sobre a praça chorando inconsolavelmente. Diz ele que o soldado ficou comovido, mas nem por isso o deixou ir em paz: convidou-o a acompanhá-lo até à estação e lá o Artur, em pranto, contou a cena noturna: Que efetivamente penetrara no cemitério e que arrancara a cruz do túmulo da sua amada para crucificar-se quando a saudade fosse muito forte. E o caso vem hoje contado na Gazeta, sob o título Profanação e o Artur viu, com pasmo, que a cruz era do túmulo de um comendador. — O Convidado de pedra... É ele?
— Anda por aí indignado.
— E o processo?
— Qual processo! A família meteu-se no caso. Mas é doido!
— Inteiramente. Já jantaste?
— Não.
— Janta conosco.
— Não, estou comprometido.
— É caso de amor?
— Não, qual amor... Não tenho tempo para essas coisas. Vou jantar com um carnavalesco que me pediu um puff.
— Ah! Bem. Amanhã, à noite, primeira reunião do Grêmio.
— Lá estarei. E já marcaste o dia da dissolução?
— Como da dissolução? Então não acreditas que possamos manter um centro de palestra?
— Não acredito.
— Por quê?
— Porque conheço o meio.
— Pois há de viver.
— Duvido muito. Nós não temos espírito de associação.
— Mas é necessário que tenhamos.
— Não dou dois meses ao Grêmio.
— Uma aposta! — bradou o Neiva dando um salto.
— Apostemos!
— Cem mil réis!
— Está feito.
— Não dura um mês?!
— Não dura um mês, repetiu Fortúnio tranqüilamente, e, sem mais dizer, estendeu a mão aos rapazes e saiu.
CAPÍTULO XX
No dia seguinte, às onze horas da manhã, sem almoço e sem esperança de encontrá-lo, Anselmo assumia o posto honroso de redator-chefe do Diário Ilustrado com um repórter, o Franco, e um contínuo, o Maia. O escritório era na rua da Uruguaiana, um sobrado novo, com duas janelas de frente, claro e arejado.
Anselmo, muito grave e sisudo, conferenciou com os proprietários da folha sobre o programa político que devia traçar no artigo de fundo e sobre as idéias financeiras que havia de propugnar. Quanto à política percebeu que os homens entendiam que a monarquia era o ideal, que o imperador era o único monarca decente do universo, que S. Cristóvão era a suprema corte, que a princesa era uma santa e o conde d'Eu, um sóbrio. Das idéias financeiras nada percebeu porque os homens falaram tanto em cambiais, em estoques, em avos e em outras coisas estranhas ao seu ouvido que ele saiu do gabinete tão alheio a tudo como se acabasse de conversar com dois japões. Todavia comprometeu-se, com muita gravidade, a promover a alta do café e a cimentar o trono com a lógica formidável da sua pena. Os proprietários saíram satisfeitos e Anselmo passou à sala da redação para distribuir o serviço. O Franco, de mãos nos bolsos, passeava pela sala, fumando. Anselmo chamou-o:
— Seu Franco, o senhor tem alguma coisa?
— Não tenho nada, disse o repórter continuando a passear. Estou fazendo horas para ir às secretarias.
— Quem vai à polícia?
— O moleque. O moleque era o Maia. Eu não tenho botas de sete léguas.
Mande o moleque. Que custa? As notas estão prontas. Eu cá não vou.
— Mas vai às secretarias?
— Sim senhor, posso ir. E, à noite, aos teatros.
— E redige as notícias?
— Deus me livre! Não faltava mais nada! Por sessenta mil réis. Ora! Não redijo nada. Quem quiser que redija, eu não.
Anselmo exacerbou-se e, de pé, franzindo a fronte, com a espátula em punho:
— Mas afinal: que faz o senhor?
O Franco voltou-se.
— Que faço? Vou à secretaria do império, vou a secretaria da fazenda, vou à secretaria da justiça, vou à secretaria da guerra, vou à secretaria da marinha, vou à secretaria das obras públicas, vou à secretaria dos estrangeiros, vou à câmara municipal... ao diabo! E então? Pensa o senhor que sou de ferro? Isso não! Com o senhor Steel éramos dois, eu e o Reis; agora sou eu só para tudo... Isso não! Então paguem mais. Saio daqui estrompado para ganhar sessenta mil réis. Não está direito. Mande o moleque. Que fica ele fazendo aqui? É um vagabundo que passa os dias cochilando e chupando balas; que vá. Eu não vou, já disse, nem que me rachem.
Anselmo, mais calmo, resolveu entender-se com o Maia e chamou-o. O continuo era gago e, para dizer uma palavra, contorcia a face, escanzelava a boca como em acesso epiléptico.
— Seu Maia, você sabe ir à policia?
— Se... e... e... i... e sim se... nho... o... o... or...
— Não sabe outra coisa, um bêbedo como esse, rosnou o Franco.
O Maia lançou-lhe um olhar feroz.
— Então dê um pulo até lá e veja se há alguma coisa.
— À noite, aconselhou o Franco. É melhor que ele vá à noite, porque traz tudo de uma vez.
— Eu vou... ô... vou sem... empre à noi... te, disse o Maia.
— Pois então à noite. Mas não se esqueça.
— Nã... o es... que ... e... ço nã... o... se... e... nhor. — Pode ir.
O Maia retirou-se e o Franco, puxando uma cadeira, repoltreou-se diante da mesa de Anselmo.
— Então é o senhor só que vem fazer o jornal?
— Eu só.
— E agüenta?
— Não sei, vou ver.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.