Por Eça de Queirós (1875)
Contou então, prolixamente, a sua história desde a publicação do Comunicado; leu, muito comovido, a carta de Amélia; descreveu a cena ao pé do Arco... Ali estava agora, escorraçado da Rua da Misericórdia por obras do senhor pároco! E parecia-lhe a ele, apesar de não ser formado em Coimbra, que contra um padre que se introduzia numa família, desinquietava uma menina simples, levava por intrigas a romper com o noivo e ficava de portas adentro senhor dela - devia haver leis!
- Eu não sei, senhor doutor, mas deve haver leis!
O doutor Godinho parecia contrariado.
- Leis! exclamou traçando vivamente a perna. Que leis quer você que haja? Quer querelar do pároco?... Por quê? Ele bateu-lhe? Roubou- lhe o relógio? Insultou-o pela imprensa? Não. Então?...
- Oh, senhor doutor, mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui homem de maus costumes, senhor doutor! Caluniou-me!
- Tem testemunhas?
- Não, senhor. - Então?
E o doutor Godinho, assentando os cotovelos sobre a banca, declarou que, como advogado, não tinha nada a fazer. Os tribunais não tomavam conhecimento dessas questões, desses dramas morais por assim dizer, que se passavam nas alcovas domésticas... Como homem, como particular, como Alípio de Vasconcelos Godinho, também não podia intervir porque não conhecia o Sr. padre Amaro, nem essas senhoras da Rua da Misericórdia... Lamentava o fato, porque enfim fora novo, sentira a poesia da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses transes do coração... E ai está tudo o que ele podia fazer - lamentar! Também para que tinha ele dado a sua afeição a uma beata?...
João Eduardo interrompeu-o:
- A culpa não é dela, senhor doutor! A culpa é do padre que a anda a desencaminhar! A culpa é dessa canalha do cabido!
O doutor Godinho estendeu com severidade a mão, e aconselhou o Sr. João Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asserções! Nada provava que o senhor pároco possuísse nessa casa outra influência, que não fosse a dum hábil diretor espiritual... E recomendava ao Sr. João Eduardo, com a autoridade que lhe davam os anos e a sua posição no pais, que não fosse espalhar, por despeito, acusações que só serviam para destruir o prestigio do sacerdócio, indispensável numa sociedade bem constituída! - Sem ele, tudo seria anarquia e orgia!
E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava nessa manhã com "o dom da palavra".
Mas a face consternada do escrevente, que não se movia, de pé junto da banca, impacientava-o; e disse com secura, puxando para diante de si um volume de autos:
- Enfim, acabemos, que quer o amigo? Já vê, eu não lhe posso dar remédio.
João Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:
- Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa por mim... Porque enfim eu fui uma vitima... Tudo isto vem de se saber que eu escrevi o Comunicado. E tinha-se combinado que havia de ser segredo. O Agostinho não disse, só o senhor doutor o sabia...
O doutor pulou de indignação na sua cadeira abacial:
- Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que o disse? Não disse... Isto é, disse; disse-o a minha mulher, porque numa família bem constituída não deve haver segredos entre esposo e esposa. Ela perguntou-me, disse-lho... Mas suponhamos que fui eu que o espalhei pelas ruas. De duas uma: ou o Comunicado era uma calúnia, e então sou eu que devo acusá-lo de ter poluído um jornal honrado com um acervo de difamações; ou era verdade, e então que homem é o senhor que se envergonha das verdades que solta e que não se atreve a manter á luz do dia as opiniões que redigiu na escuridão da noite?
Duas lágrimas enevoaram os olhos de João Eduardo. Então, diante daquela expressão esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma argumentação tão lógica e tão poderosa, o doutor Godinho abrandou:
- Bem, não nos zanguemos, disse. Não se fala mais em pontos de honra... O que pode acreditar é que lamento o seu desgosto.
Deu-lhe conselhos duma solicitude paternal. Que não sucumbisse; havia mais meninas em Leiria e meninas de bons princípios que não viviam sob a direção da sotaina. Que fosse forte, e que se consolasse pensando que ele, doutor Godinho - e era ele! - também tivera em moço desgostos do coração. Que evitasse o domínio das paixões que lhe seria prejudicial na carreira pública. E que se o não fizesse por seu interesse próprio, o fizesse ao menos em atenção a ele, doutor Godinho!
João Eduardo saiu do escritório, indignado, julgando-se traído pelo doutor.
- Isto sucede-me a mim, resmungava, porque sou um pobre-diabo, não dou votos nas eleições, não vou às soirées do Novais, não subscrevo para o clube. Ah, que mundo! Se eu tivesse um par de contos de réis!...
Veio-lhe então um desejo furioso de se vingar dos padres, dos ricos, e da religião que os justifica. Voltou muito decidido ao escritório, e entreabrindo a porta:
- Vossa excelência ao menos agora dá licença que eu desabafe no jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar nessa canalha...
Esta audácia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braços:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.