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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Se nos sentássemos naquele banco, hem? É muito cedo para recolhermos, não é verdade,Anica? E está tão agradável neste sossego, nesta frescura...

Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros malmequeres e botôes-de-ouro que o sol de agosto poupara. Um aromazinho fino, de algum jasmineiro emaranhado na hera, errava, adocicava a serena tarde. E na rama dum álamo, defronte do portão da Capela duas vezes um melro cantara. Gonçalo sacudiu todo o banco cuidadosamente com o lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou também a frescura, o recolhimento daquele cantinho de Craquede... E ele que nunca se aproveitara de refúgio tão santo, e quase seu, nem mesmo para um almoço bucólico! Pois agora certamente voltaria a fumar um charuto, revolver idéias de paz sob a paz das carvalheiras, na vizinhança dos vovós mortos... Depois, com uma curiosidade:

- É verdade, prima! E o subterrâneo?

Oh! não existia subterrâneo!... Sim, existia - mas entulhado, sem sepulturas, sem antigüidades. E o sacristão logo lhes afiançara que "não valia a pena sujarem as saias..." - É verdade, oh Anica, deste alguma coisa ao sacristão?

- Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi bastante.

Gonçalo assegurou que se pagara suntuosamente ao sacristão. E, se previsse tamanha generosidade da Sra. D. Ana, agarrava ele um molho de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar e para embolsar...

- Pois é o que devia ter feito! - exclamou D. Maria, com um corisco nos espertos olhos. - Edecerto se lhe davam os cinco tostões! Porque sempre seria mais instrutivo que o homenzinho, que mascava, não sabia nada!... Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquele túmulo aberto, com a tampa rachada... O mono só soube resmungar que "eram histórias muito antigas lá do Fidalgo da Torre..." Gonçalo ria:

- Pois essa história por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo Fado dos Ramires, o fado do Videirinha.

D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos céus, revoltada com aquela indiferença pelas tradições heróicas da Casa. Conhecer somente os seus Anais desde que eles andavam repicados num fado!... O primo Gonçalo não se envergonhava?

- Mas porquê, prima, por quê? O fado do Videirinha está fundado em documentos autênticosque o Padre Soeiro estudou. Todo o recheio histórico foi fornecido pelo Padre Soeiro. O Videirinha só pôs as rimas. Além disso, antigamente, prima, a História era perpetuada em verso e cantada ao som da lira... Enfim quer saber esse caso do túmulo aberto, segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas só para a Sra. D. Ana, que não sofre desses escrúpulos... - Não! - acudiu D. Maria. - Se o Videirinha tem essa autoridade histórica então conte também para mim, que sou da Casa!

Gonçalo, por gracejo, tossiu, passou o lenço pelos beiços:

- Pois eis o caso! Nesse túmulo habitava, naturalmente morto, um dos meus avós... Não melembro o nome, Gutierres ou Lopo. Creio que Gutierres... Enfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas de Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco Reis mouros, etc. Como o tal Gutierres soube da batalha não contam os versos do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a carnificina, arromba o túmulo, sai por este pátio como um desesperado, desenterra o seu cavalo que fora enterrado no adro onde agora crescem estes carvalhos, monta nele todo armado, e Cavaleiro morto sobre cavalo morto, larga a galope através da Espanha, chega às Navas, arranca a espada, e destroça os mouros... Que lhe parece, Sra. D. Ana?

Dedicara a história a D. Ana, procurando nos seus belos olhos a atenção e o interesse. E ela, que a furto, através do decoro melancólico a que se esforçava, adoçara o sorriso, atraída e levada, murmurou apenas: -"Tem graça!" - D. Maria, porém, quase esvoaçou sobre o banco de pedra, num êxtase: - "Lindo! Lindo! Que poesia!... Oh! uma lenda de todo o apetite!" - E, para que Gonçalo desenrolasse ainda a graça do seu dizer, outras maravilhas da sua Crônica:

- Conte, primo, conte... E voltou para Craquede esse tio Ramires?

- Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse ele tolo! Apenas se apanhou livre da maçada dasepultura não apareceu mais em Santa Maria de Craquede. O túmulo vazio, como está, e ele por Espanha numa pândega heróica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo, daquela postura eterna, tão apertada, tão esticada!...

Subitamente emudeceu, lembrando o Sanches Lucena, também esticado no seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo de Oliveira... - D. Ana baixara a face, mais sumida no véu, esfuracando a erva com a ponta da sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que de novo os roçara, rompeu noutra curiosidade, que ainda se encadeava na nobreza dos Ramires:

(continua...)

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