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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Vou tratar disso. Hoje mesmo decido a questão da casa. Já amanhã poderemos instalar-nos. Era uma necessidade. Em toda a parte os homens de letras têm um centro onde se reúnem. Aqui, não: ou a rua do Ouvidor ou o botequim. É uma vergonha. E querem que haja solidariedade. Vamos levar isso a efeito: é uma idéia que nos pode trazer magníficos resultados. Atirou a mão espalmada à coxa do companheiro: Seu Anselmo, nós somos uma potência. Se nos uníssemos, se não andássemos em eterno sismo provocado pela vaidade, porque cada qual se julga o maior, o pontífice das letras, já teríamos feito alguma coisa, entanto não valemos nada. Uma das causas da decadência literária, talvez a principal, é esta maldita rua do Ouvidor. Vocês mal saem do banho frio, ainda molhados, engolem, às pressas, a xícara de café e correm para aqui e aqui passam os dias bebericando, elogiando-se, discutindo sonetos e crônicas ou farejando cocottes. Que diabo! Não é assim que se faz um artista... Trabalhem, dêem algumas horas ao livro, façam alguma coisa a sério, deixem este maldito vício da rua do Ouvidor.

— E tu?

— Perdão, eu não sou escritor, nem me apresento como tal — eu sou um folhetinista oral: a rua do Ouvidor é o meu rodapé. Eu faço com a palavra o que vocês fazem com a pena, com a diferença, porém, de que eu estudo e vocês espreguiçam-se, bocejam inertemente.

— Tu estudas?

— Não faço outra coisa. Os meus livros andam encadernados em cheviotes, em flanelas, em sedas; há alguns brochados: são os miseráveis. Cada tipo dá-me um folhetim, cada vida, a mais simples, dá-me assunto para falar uma hora. Vivo a dizer verdades. Bem sei que a minha obra é precária, mas há de ficar o benefício. Falo: a minha enxada está aqui e, espichando a língua, tocou-a com o indicador.

Levantaram-se e seguiram, caminho do hotel. Justamente Anselmo chegava à porta quando esbarrou com o Lins que entrava, com um grande charuto encravado nos dentes.

— Que é isto! Tu aqui?!

— Então! Onde querias que eu estivesse?

— O Neiva disse-me, há pouco, que estavas à morte, sem fala...

— Sem vintém é que estou, desde ontem.

— Mas não estiveste doente?

— Qual doente! Não tenho nada, nem ceroulas... Estou aqui sem ceroulas. É uma vergonha!

— E com os sapatos num estado...

— Um homem de espírito não olha para os pés, murmurou o poeta.

Anselmo levantou os olhos e desatou a rir:

— Onde foste buscar esse chapéu, Lins?

— Sei lá! Apareceu-me na cabeça hoje de manhã. Era um velho chapéu de palha, de grandes abas, crivado de furos. E o boêmio explicou: Creio que serviu de alvo em alguma casa de tiro. Mas assim é bom, o ar penetra livremente e, como os médicos recomendam que se deve trazer sempre a cabeça fresca, estou contente com esta peneira. O Neiva, que havia parado a conversar com um patrício, deu um salto para a calçada quando viu o poeta.

— Tu! Donde vens? Tu és o Lins?!

— Em carne e osso.

— Pois não morreste?

— Não, como vês.

— Nem esteve doente, disse Anselmo. E tu afirmaste que o havias visitado e que ele estava sem fala.

— É exato. Mas eu sou capaz de jurar... Eu não estive ontem em tua casa, Lins?

— É possível; não garanto, porque lá não fui.

— É extravagante...!

— É macabro!

— Pois eu ontem estive contigo, por Deus! Estavas agonizando, sem fala.

Pensou: Onde jantei eu ontem, Francisco? Ah! No Daury... Então foi sonho.

— Com certeza.

— E tu? Que fizeste ontem?

— Homem, para dizer a verdade, não sei. Acordei hoje às 9 da manhã em casa de uns estudantes, na rua do Núncio. Não me interrogues: sou um poço de discrição.

— Queres jantar conosco...?

— Vá lá. Entraram.

— Pois olha, eu já tinha começado a recolher uns cobres para mandar rezar a missa do sétimo dia.

— E arranjaste alguma coisa?

— Seis mil e que...

— Pois vamos beber essa missa e vê se tiras depois para um Te-Deum em ação de graças pelo meu restabelecimento... e bebe-se também o Te-Deum.

Sentaram-se à mesa e iam começando a jantar quando Fortúnio apareceu rindo a bandeiras despregadas.

— Que é isso, homem?

O poeta sentou-se e contou, por entre gargalhadas, a "noite" do Duarte. Havia falecido uma das suas muitas apaixonadas — menina loura, de olhos azuis, quinze anos, com o doce nome de Carmen. Exaltado, o Duarte, para sopitar a grande dor, atirou-se à adega paterna e, durante três dias, encafuado entre os canteiros, bebeu e chorou desesperadamente. Na noite da véspera, inconsolável, resolveu ir visitar a noiva que se finara e abalou para o cemitério de S. João Batista conseguindo penetrar no Campo Santo.

Errou muito tempo entre túmulos sem acertar com o que escondia o formoso corpo da donzela até que, por fraqueza das pernas, rolou sobre um deles abraçando-se com a cruz. E começou a soluçar, blasfemando contra Deus, pedindo a morte e, tanto fez que, nem ele mesmo sabe dizer como, arrancou a pesada cruz do sepulcro saindo com ela como uma relíquia. Tomou o bonde, mas um soldado, desconfiando do fardo, que o poeta mal sustentava nas mãos, interpelou-o:

— Quem é o senhor?

— Eu sou o homem mais desgraçado deste mundo, camarada.

— Onde vai com essa cruz?

(continua...)

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