Por Eça de Queirós (1925)
Um amor avido de se produzir, de se manifestar, enchia-lhe o peito : aquella cinta fina, direita, attrahia-lhe os braços, a trança negra, em catogan, chamava-lhe as pontas dos dedos ; punha toda a alma nos olhos, tão intensamente, que não ficaria surprehendido se ena parasse, se voltasse e lhe estendesse a mão.
Notava sofregamente todos os seus movimentos, como revelações do seu caracter ; viu-a erguer os olhos para um cartaz e lamentou que não fosse a sua peça, annunciada alli em grossas letras negras ; teve odio a um gallego, que, ao passar pesadamente, quasi lhe roçou a manga do vestido azul : como correria se alguem a offendesse ou a pisasse ! apertava com furor a bengala, olhando em redor, prompto a defendel-a, imaginando que um bebado, ao sahir d'uma, taberna, lhe passava as mãos mundas pelo rosto , . . Elle precipitava-se : ella refugiava-se nos seus braços, reconhecia-o—e um amor delicioso começava, que seria a gloria, o fim, a alta significação da sua vida. Impellido por aquellas imaginações, ia quagi junto d'ella, Tinham entrado na rua de S. Bento ; pensou então em passar adiante, voltar-se, fital-a com adoração, dizer-lhe n'um longo olhar : Sou eu ! Olha para mim, não te lembras
Mas uma timidez retinha-o. Ia emfim adiantarse, quando ella, atravessando a rua, entrou no portão largo d'uma casa espaçosa d'um andar Que ferro ! . . Mas talvez lhe apparecesse á janell& i!
Havia uma vidraça entreaberta, por onae elle via, entre o estofo escuro das bambinellas, reluzirem vagamente, no fundo sombrio, dourados de
quadros. Accendeu um charuto e pôz-se a passear devagar, esperando a cada momento vêr chegar á varanda a cabecinha pallida e fina, já sem chapéu, Morava de certo alli, e a casa, com sua fachada amarella, as janellas do rez-do-chüo gradeadas, o pateo d'uma pedrinha miuda, com dous batentes de baeta verde ao fundo, sobre um degrau, attra hia-o singularmente, por uma expressão discre ta, aristocratica, como se a querida creatura que lá vivia lhe communicasse uma graça digna e reco lhida.
Um guarda-portão grosso, barbudo, veio collocar se á porta rolando em redor olhares magestosos, e Arthur, receando que elle reparasse na sua curiosi dade inquieta, por prudencia, tomou a subir a rua do Correio. Esquecera agora as provas, o livro, e caminhando rapidamente, pensava com energia em cousas vagas que tentaria para se fazer conhecer, e conseguir o seu amor ! A casa de D. Joanna Cou tinho, as suas soirées aristocraticas e litterarias, onde ella, tão bonita, tão nobre, de certo ia, offereciam lhe o meio mais accessivel. Eram o rendez-vous do nosso high-life, dissera Meirinho quando promet tera apresental-o. Iria de casaca, com uma camelia vermelha . . . Pediria delicadamente ao Meirinho que o apresentasse . . . Qual ! devia exigil-o Tinha di reito a isso : comprara-lhe um paletot e duas pisto Ias, regalara-o com um bom jantar ! Era necessario ser finorio b. Meirinho devia saber o nome d'ella, as suas relações, os seus habitas ; Melchior tambem, elle que dizia conhecer até os cães vadios da rua . . . de repente deu de rosto com o jornalista, que descia a rua do Carvalho :
— Homem, vinha a pensar em você — disse expansivamente, esquecido da infamia da noticia do Seculo.
Melchior tivera um movimento para se esqui var, mas deu-lhe um aperto de mão molle, hesitante com as faces escarlates.
Que tinha feito Porque não apparecera na redacçño O Saavedra perguntara por elle — gostara immenso do drama, o Saavedra . . .
Mascava as palavras, espessamente, com um embaraço que lhe entumecia as feições — e de repente, gem transição, muito alto, com grandes gestos que faziam voltar pessoas espantadas, começou a invectivar o Roma.
Fôra o Roma quem escrevera o artigo do Seouto, aquelle patife ! Tinha sido uma perfidia ! Elle, quando o lera, até arrancara os cabellos . , .
E cruzando os braços com violencia, quasi es candalizado com Arthur :
— Mas para que me não disse você a verdade ? Que tem você com o Roma ?
Arthur jurou energicamente que não tinha nada eom o Roma.
— Pois não o póde tragar !
E, para fallar com menos reserva, foi-o levando pelas ruas mais isoladas do Bairro Alto.
—-- Você percebe, eu não podia escrever a noticia ! Que diabo, eu é que tinha dado o jantar, não era decente. Pedi ao Roma : sempre é um vulto, é um estylista ! Reeommendei-lhe que falasse no drama, com um bello elogio, um elogio d'arromba ! Pois senhore,s, escreve aquella infamia !
Arthur então indignou-se. Que pouca vergonha ! E elle então que até admirava o Roma e os Idyllios 6 Devaneios !
Pois que tivesse cuidado ! Que havia nos Idyllios muitos podres . . . Versos errados, imitações, erros de grammatica . . . !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.