Por Eça de Queirós (1875)
E de um só fôlego acusou furiosamente o corcunda de o ter traído.
Agostinho erguera-se devagar, procurando sem perturbação a bolsa do tabaco na algibeira da jaqueta.
- Homem, disse, nada de espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra de honra que não disse a ninguém do Comunicado. É verdade que ninguém me perguntou...
- Mas quem foi, então? gritou o escrevente.
Agostinho enterrou a cabeça nos ombros.
- Eu o que sei é que os padres andavam numa azáfama para saber quem era. O Natário esteve aí uma manhã, por causa do anúncio de uma viúva que recorre à caridade pública, mas do Comunicado não se disse nem palavra... O doutor Godinho é que sabia, entende-te com ele! Mas então fizeram-te alguma?
- Mataram-me! disse João Eduardo lugubremente.
Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e saiu arremessando a porta. Passeou na Praça; foi ao acaso pelas ruas; depois, atraído pela obscuridade, à estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma intolerável palpitação surda latejar-lhe interiormente contra as fontes; apesar de ventar forte nos campos, parecia-lhe seguir um silêncio universal; por vezes a idéia da sua desgraça rasgava-lhe subitamente o coração, e então imaginava ver toda a paisagem oscilar e o chão da estrada afigurava-se-lhe mole como um lamaçal. Voltou pela Sé quando batiam onze horas; e achou-se na Rua da Misericórdia, com o olhar cravado para a janela da sala de jantar, onde havia ainda luz; a vidraça do quarto de Amélia alumiou-se também; ela ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um desejo furioso da sua beleza, do seu corpo, dos seus beijos. Fugiu para casa; uma fadiga intolerável prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade indefinida, profunda, foi-o amolecendo, e chorou muito tempo, enternecendo-se mais com o som dos seus próprios soluços, - até que ficou adormecido, de bruços, numa massa inerte.
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Ao outro dia, cedo, Amélia vinha da Rua da Misericórdia para a Praça, quando ao pé do Arco, João Eduardo lhe saiu de emboscada.
- Quero falar-lhe, menina Amélia.
Ela recuou assustada, disse a tremer:
- Não tem que me falar...
Mas ele plantara-se diante dela, muito decidido, com os olhos vermelhos como carvões:
- Quero-lhe dizer... Lá do artigo, é verdade, fui eu que o escrevi, foi uma desgraça; mas a menina tinha-me ralado de ciúmes... Mas o que a menina diz de maus costumes é uma calúnia. Eu sempre fui um homem de bem...
- O Sr. padre Amaro é que o conhece! Faz favor de me deixar passar...
Ao nome do pároco, João Eduardo fez-se lívido de raiva:
- Ah! é o Sr. padre Amaro! É o maroto do padre! Pois veremos Ouça...
- Faz favor de me deixar passar! disse ela irritada, tão alto, que um sujeito gordo de xale-manta parou olhando.
João Eduardo recuou, tirando o chapéu; e ela, imediatamente, refugiou-se na loja do Fernandes.
Então, num desespero, correu a casa do doutor Godinho. Já na véspera, por entre os seus acessos de choro, sentindo-se tão abandonado, se lembrara do doutor Godinho. Fora outrora seu escrevente; e como por pedido dele entrara no cartório do Nunes Ferral, e por sua influência ia ser acomodado no governo civil, julgava-o uma Providência pródiga e inesgotável! Demais, desde que escrevera o Comunicado considerava-se da redação da Voz do Distrito, do grupo da Maia; agora, que era atacado pelos padres, devia claramente ir acolher-se à forte proteção do seu chefe, do doutor Godinho, do inimigo da reação, o "Cavour de Leiria", como dizia, arregalando os olhos, o bacharel Azevedo, autor dos Ferrões! - E João Eduardo, dirigindo-se ao casarão amarelo, ao pé do Terreiro onde o doutor vivia, ia num alvoroço de esperanças, contente em se refugiar, como um cão escorraçado, entre as pernas daquele colosso!
O doutor Godinho descera já ao escritório, e repoltreado na sua poltrona abacial de pregos amarelos, com os olhos no teto de carvalho escuro, acabava com beatitude o charuto do almoço. Recebeu com majestade os "bons-dias" de João Eduardo.
- E então que temos, amigo?
As altas estantes de in-fólios graves, as resmas de autos, o aparatoso painel representando o marquês de Pombal , de pé num terraço sobre o Tejo, expulsando com o dedo a esquadra inglesa - acanharam como sempre João Eduardo; e foi com voz embaraçada que disse vinha ali para que sua excelência lhe desse remédio numa desgraça que lhe sucedia.
- Desordens, bordoada?
- Não, senhor, negócios de família.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.