Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo, rindo, recordou que o encontro daquele ancião precedia sempre um encontro seu com a bela D. Ana. - "Quem sabe? pensou. É talvez o Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e longas guedelhas, e o alforje às costas contendo as sortes humanas..." - E com efeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas réstias de sol docemente douravam avistou a caleche da Feitosa, parada sob uma carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A estrada real de Oliveira costeia aí o antigo adro do mosteiro de Craquede, queimado pelo fogo do céu, naquela irada tempestade que chamam de S. Sebastião, e que aterrou Portugal em 1616. Uma erva agora alfombra o chão, crescida e verde, entre os poderosos troncos dos castanheiros velhíssimos. A Igrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo da ramaria; e, ligada a ela por um muro esbrechado que densa hera veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro - sobe, enche ainda magnificamente o céu lustroso a fachada da Igreja do vetusto Mosteiro, suavemente amarelecida e brunida pelos tempos, com o seu imenso portal sem portas, a rosácea desmantelada, e esvaziados os nichos de enterramento onde outrora se estiraçavam as imagens dos fundadores, Fróilas Ramires e sua mulher Estevaninha, Condessa de Orgaz, por alcunha a Queixa-perra. Duas casas térreas povoam o lado fronteiro do adro uma limpa, com as ombreiras das janelas pintadas de azul estridente, a outra deserta, quase sem telhado, afogada na verdura dum quinteiro bravo, onde girassóis resplandecem. Um pensativo silêncio envolvia o arvoredo, as altivas ruínas. E nem o quebrava, antes serenamente o embalava, o sussurro duma fonte, que a estiagem adelgaçara em fio lento, e mal enchia o seu tanque de pedra, toldado pela pálida e rala folhagem de um chorão muito alto.
O trintanário da Feitosa, ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a égua. E Gonçalo, que desde pequeno não penetrava nas ruínas de Craquede, seguia por um carreirinho cortado na relva, atentamente, encantado com aquela romântica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do portal, apareceram as duas senhoras voltando do velho claustro. D. Maria Mendonça, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o guarda-sol de xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente nos ombros, lhe vincavam mais a elegância esgalgada. E ao lado, na claridade, D. Ana era uma silenciosa e esbelta forma negra, de lã negra e de escumilha negra, onde apenas transparecia, suavizada sob o véu negro, a brancura esplêndida da sua face sensual e séria.
Gonçalo correra, erguendo o chapéu de palha, balbuciando o seu "prazer por aquele encontro... 'Mas já D. Maria o repreendia, sem lhe consentir a fábula do "encontro":
- O primo não é nada amável, nada amável...
- Oh, prima'....
- Pois sabia que vínhamos, pela minha carta! E nem está à hora aprazada, para fazer as honras,como devia...
Ele, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever! Aquela casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia "fazer as honras" - acolher tão doces romeiras com algum milagre amável...
- E então gostaram? V. Exa., Sra. D. Ana, gostou das ruínas?... Muito interessantes, não éverdade?
Através do véu, com uma lentidão que a espessa renda negra tornava mais grave, ela murmurou:
- Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o pobre Sanches que Deus haja.
- Ah...
Àquela evocação do pobre morto, Gonçalo sumira todo o sorriso, com polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudiu, atirando um dos seus magros gestos, como para arredar a sombra importuna:
- Ai! não imagina o que gostei, primo! É de apetite todo o claustro... Logo aquela espadaenferrujada, chumbada por cima do túmulo.. Não há nada que impressione como estas coisas antigas... Oh, primo, e pensar que estão ali antepassados nossos!
O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor, como sempre que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de Ramires. E gracejou, afavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados de cinza vã! - Pois não era verdade, Sra. D. Ana?... Realmente! quem conceberia que a prima Maria, tão viva, tão sociável, tão engraçada, descendesse duma poeira tristonha guardada dentro duma pia de pedra? Não! não se podia ligar tanto ser a tanto não ser... - E como D. Ana sorria, numa vaga concordância, encostando as duas mãos fortes e muito apertadas na peliça negra ao alto cabo de aljôfar da sombrinha, ele atalhou com interesse:
- V. Exa. está talvez cansada, Sra. D. Ana?
- Não, não estou cansada... Ainda vamos mesmo entrar na capela, um bocadinho... Eu nuncame canso.
E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa criatura não rolava do papo, tão grossa e gorda mas que se afinara, adoçada e velada pelo luto de escumilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que a noite e o arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu imenso cansaço! Nada a esfalfava como visitar curiosidades... E além disso a emoção, a idéia de heróis tão antigos!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.