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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Perdão, pensas que sou inimigo dos portugueses? Não há tal, já expliquei a minha opinião. Que farias tu se um hóspede começasse a dar leis em tua casa? — Quebrava-lhe a cara.

Riram-se todos e, sem mais explicações, apartaram-se.

CAPÍTULO XIX

Anselmo estava in albis e, como pretendia passar a noite trabalhando, porque tencionava dar começo a um romance para o rodapé do Diário Ilustrado, deteve-se na esquina da rua Uruguaiana farejando um jantar. Mas os jantares não passeiam na rua do Ouvidor e, certo disso, o futuro redator-chefe foi subindo vagarosamente, desacorçoado, quando, no largo de S. Francisco, ao dar com a estátua do patriarca, que o sol crepuscular polvilhava de ouro, teve uma inspiração feliz:

"É verdade! Por que não hei de ir jantar em uma casa de jogo? Fortúnio come regaladamente e declara que as tavolagens têm os primeiros cozinheiros desta cidade. Que mal há nisso? Vou; não jogo, mesmo porque não tenho vintém, como e ponho-me a andar antes que a polícia me apanhe na batota. O diabo é que não conheço ninguém... Se ainda pudesse encontrar o Lins... Mas onde?!" Resolveu procurar o poeta no Castelões, mas só achou o Neiva, na última mesa, diante de uma papelada esparsa, a tomar notas.

— Salve! O boêmio fitou-o com os olhos piscos, sem pince-nez.

— Oh! Senta-te. Bebes?

— Não.

— Sabes? O nosso Lins está à morte.

Anselmo deu um salto na cadeira.

— Como?! Se ainda ontem estivemos juntos.

— Pois, meu amigo, já está sem fala. Estou chegando da casa dele. Nem me reconheceu.

— Mas que tem?

— Sei lá! Congestão ou coisa assim. E, pondo o pince-nez, bramiu com os olhos rutilantes: Extravagâncias! Vocês não me querem ouvir. Vivo aqui a bradar, como um João Batista, contra as extravagâncias e todos pensam que estou a fazer pilhéria. Seu Lins é um homem fraco, doente, pois ontem, à noite, em vez de tomar o seu conhaque do costume, entendeu que devia experimentar um sorvete. Sorvete!

Neste país...! O resultado aí está: não escapa. Os médicos não têm esperança de salvá-lo.

— Então é grave...?

— Se estou a dizer que já perdeu a fala.

— Vou vê-lo.

— Deves ir.

— Onde mora ele?

— Fora de portas; nos confins da rua do Senador Pompeu.

— E eu vinha aqui procurá-lo para ir com ele a uma casa de jogo.

— Hein?! Vais jogar?

— Qual jogar! Não tenho um vintém: ia jantar.

— Ias à ficha de consolação.

— É verdade.

— Janta comigo, queres?

— Onde?

— Ali defronte, no Londres.

— Pois vamos.

— Mas espera um instante, deixa-me arranjar esta papelada... Posso morrer de uma hora para outra e não quero comprometer umas tantas senhoras que me amam. Estou agora com seis complicações: duas no largo do Rocio, uma na rua do Lavradio, outra na rua do Riachuelo, ainda outra no Daury e uma senhora honestíssima em Paula Mattos...! Ah! Meu amigo, só a minha paciência, só a minha paciência! A de Paula Mattos, então, é uma fera! Quando apareço tarde desaba em cima de mim como uma avalanche, e são beijos, e são lágrimas e são dentadas. Um desespero! Tenho o corpo como um mapa-múndi. Sou um homem tatuado pelo amor. Ontem fui ao cabeleireiro e o homem esfregou-me a cabeça com uma loção não sei de que, pois, meu amigo, quase me matam, as seis! Foi um trabalho para convencê-las de que eu saíra de um salão de cabeleireiro e não da câmara de uma rival, e à noite, estava amassado, triturado... um horror! Não te metas com mulheres ciumentas, mira-te neste espelho e, arregaçando a manga do casaco, mostrou o braço manchado, denegrido. E isto não é nada, se visses o resto choravas; é um horror! Mas que hei de fazer? E a despesa? Uma quer frutas, outra quer camarotes, outra reclama um leque. A de Paula Mattos anda a perseguir-me por causa de um chapéu que viu na Douvizy e seu Neiva que cave! Já ando atordoado, não sei mais como arranjar dinheiro. Toma alguma coisa.

— Vou tomar um Xerez.

— Olha um Xerez aqui!

— E o Grêmio, Neiva?

(continua...)

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