Por Bernardo Guimarães (1883)
— Ah ! coitadinha ! . . . logo vi. Você pensa que eu já não percebi a má tenção de sinhó moço ? . cruz... ! que homem ruim é aquelle ! mas socega, minha filha, não ha de ser nada, Eu vou buscar roupa para você mudar, e depois você ha de me contar uma cousa.
— Pois sim, tia Lucinda ; vae mesmo, vae me buscar outro vestido, que eu assim não posso apparecer; o que é que sinhá Adelaide ha de pensar de mim vendo-me neste estado
Lucinda, como o leitor deve lembrar-se, foi quem recebeo nos braços, quando veio á luz do mundo, a mimosa e infeliz creança fructo dos amores clandestinos de Conrado e Adelaide ; foi ella quem lavou, pensou, vestio e depois expoz, com boas e louvaveis inten.ções, a miscra recem-nascida á porta de NhaTuca. Tinha-lhe feito impressão e trazia gravado na lembrança um signalsinho muito distincto, que a creança tinha do lado esquerdo pouco mais ou menos na altura do coração, em forma de cruz semelhando um habito do cruzeiro. Rozaura appresentava agora um signal em tudo igual e semelhante, si bem que um pouco deslocado. Demais Lucinda já havia notado uma tal ou qual semelhança das feições de Rozaura com as de Adelaide e mais ainda com as de Conrado. Entretanto estava certissima que vira estendida em seu pequeno feretro ornado de flÔres e capellas o cadaver da filhinha de sua sinhá. A preta entrou a scismar sobre esta estranha coincidencia, e uma forte supposição, quasi com o caracter da certeza, penetrou-lhe no espirito. Rozaura era a engeitada ; Rozaura cra a filha de Adelaide e Conrádo; a creança que vira morta, era outra.
— Anda, minha filha, toma, muda essa roupa, — disse Lucinda entrando e entregando a Rozaura um vestido. — Agora, — continuou ella depois de ter ajudado a menina a vestir-se.
— agora você ha de me dizer uma cousa, que ainda não me disse, porque eu ainda não perguntei. Donde é que você é ?. . . quem foi teu sinhô ou tua sinhá, que tp vendeo para sinhô Moraes. . você é daqui mesmo de S. Paulo .. falla verdade, minha filha.
Tia Lucinda, que precisão tenho eu de mentir? sou mesmo aqui de S. Paulo; sou cria da casa de uma mulher velha, que mora na beira da estrada, que vae para as bandas de Jundiahy, chamada Nha- Tuca. Minha mãe morreo, já vae para cinco annos...
— E de que cor era tua mãe? . . . — atalhou Lucinda.
— Minha mãe minha mãe era... um pouco mais trigueira do que eu.
— Ah! logo vi ; era mulata, — murmurou comsigo a preta. — O que eu desconfio, vae tomando rumo. E depois, minha filha.
— E depois, eu havia de ter uns dez annos, minha sinhá me vendeo a um homem velho, que costumava comprar para vender por fóra combois de escravos. Elle a mulher delle ficárão gostando de mim, me estimavão muito, c não me querião vender por nada. Si não fossc o senhor Moraes, que tanto teimou e offereceo tanto dinheiro, elles não me vendião.
Mas escuta, menina; você nunca ouvio dizer que lá na casa de Nha-Tuca, quando você nasceo, aconteceo alguma cousa ? . . .
— Não, tia Lucinda ; não me lembro de nada.
Puxa pela memoria, menina; lembra bem... talvéz...
Ah! Ah! agora me lembro, tia Lucinda,
— replicou Rozaura batendo na alva testa com os rosados dedinhos ; — a cr ol'a me lembro que lá em casa de sinhá velha ouvi contar que no dia em que eu nasci, appareceo na porta de casa uma menina engeitada, que morreo no mesmo dia.
Sancto nome de Jesus ! . . murmurou Lucinda benzendo-se. Eis ahi como são as cousas deste mundo ? . . . Ah ! Rozaura ! Rozaura . está me parecendo que essa menina engeitrada não morreo nada.
— Como assim, tia Lucinda! . . .
— Não sei, minha filha, mas tenho cá minhas scismas... Deixa estar, menina; ou cu não sou filha de minha mãe, ou hei de desmanchar esta candonga, seja lá como fôr.
Neste momento appareceo Estella, que vinha charnar Rozaura, e Lucinda achando-se a sós ficou a banzar sobre o estranho caso, que acabava de presenciar, e quanto mais scismava, mais se convencia de que Rozaura era a filha de Adelaide, que ella havia exposto, na porta da casa da velha Gertrudes.
— Deus de misericordia ! pensava ella. Como é que póde acontecer uma cousa destas a mãe, sem saber, comprar sua propria filha e tel-a em casa como escrava ! . . . E ha de continuar a tel-a nessa conta sem nunca poder saber a verdade !? . . . Não; isto não póde continuar assim... Deus não quer isto. Agora, que pouco mais ou menos já dei na malhada, hei de botar tudo isto em pratos limpos, custe o que custar,
Assim reflexionando, a preta começou a excogitar os meios que empregaria para rasgar completamente o véo daquelle mysterio, que um acaso, ou antes um assignalado favor da providencia lhe ia revelando.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.