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#Contos#Literatura Brasileira

Muitos anos depois

Por Machado de Assis (1874)

— E então, repetiu João Lima com placidez; esse pensamento infame entrou-lhe no espírito. Infame seria em qualquer outro; mas em quem traz vestes sacerdotais... Não respeitar nem o seu caráter, nem o estado alheio; cerrar os olhos aos laços sagrados do matrimônio...

Vilela interrompeu a João Lima exclamando:

— Está doido!

Mas João Lima não se molestou; referiu placidamente ao padre-mestre que o seu amigo ousara desrespeitar-lhe a esposa.

— É uma calúnia! exclamou Vilela.

— Perdão, disse João Lima, disse-me quem podia asseverar.

Vilela não era naturalmente manso; conteve-se a custo ao ouvir estas palavras do amigo. Não lhe foi difícil perceber a origem da calúnia: era a antipatia de D. Mariana. Admirou-se que descesse a tanto; no seu íntimo resolveu dizer tudo ao jovem sacerdote. Não deixou porém de observar a João Lima:

— Isso que me diz é impossível; houve certamente equívoco, ou... má vontade; acho que seria principalmente má vontade. Não hesito em responder por ele.

— Má vontade por quê? perguntou João Lima.

— Não sei; mas alguma havia em que eu já reparam ainda antes do que se deu ultimamente. Quer que seja inteiramente franco?

— Peço-lhe.

— Pois bem, todos temos defeitos; sua senhora, entre boas qualidades que possui, tem alguns e graves. Não se zangue se lhe falo assim; mas é preciso dizer tudo quando se trata de defender como eu a inocência de um amigo.

João Lima não dizia palavra. Ia cabisbaixo ouvindo as palavras do padre Vilela. Ele sentia que o padre não estava longe da verdade; conhecia a mulher, sabia por onde pecava o seu espírito.

— Eu creio, disse o padre Vilela, que o casamento de seu filho influiu na desafeição de sua esposa.

— Por quê?

— Talvez não fosse muito do agrado dela, e ao Flávio se deve o bom desfecho que teve aquele negócio. Que lhe parece?

Não respondeu o interlocutor. As palavras de Vilela trouxeram-lhe à memória algumas que ouvira à mulher em desabono do padre Flávio. Era bom e fraco; arrependia-se facilmente. O tom decisivo com que falou Vilela profundamente o abalou. Não tardou que ele mesmo dissesse:

— Não desconheço que é possível um equívoco; o espírito suscetível de Mariana podia errar, era mais natural que ela se esquecesse de que tem um resto das suas graças para só se lembrar de que é uma matrona... Perdão, falo-lhe como amigo; releve-me estas expansões em tal assunto.

Vilela dirigiu a João Lima no caminho em que entrava. No fim de uma hora estavam quase de acordo. João Lima encaminhou-se para casa acompanhado de Vilela; iam já então calados e pensativos.

IX

Ao chegarem à porta quis Vilela retirar-se. Souberam porém que Flávio estava em cima. Os dois olharam um para o outro, Vilela atônito, João Lima fulo de cólera. Subiram.

Na sala estavam D. Mariana e o padre Flávio; ambos de pé, em frente um do outro, Mariana com as mãos de Flávio entre as suas.

Os dois estacaram à porta.

Seguiu-se um longo e profundo silêncio.

— Meu filho! meu amigo! exclamou Vilela dando um passo para o grupo. D. Mariana tinha soltado as mãos do jovem sacerdote e deixara-se cair numa cadeira; Flávio tinha os olhos baixos.

João Lima adiantou-se calado. Parou em frente de Flávio e encarou-o friamente. O padre ergueu os olhos; havia neles uma grande dignidade.

— Senhor, disse Lima.

D. Mariana levantou-se da cadeira e atirou-se aos pés do esposo.

— Perdão! exclamou ela.

João Lima empurrou-a com um braço.

— Perdão; é meu filho!

Eu deixo ao leitor imaginar a impressão deste lance de quinto ato de melodrama. João Lima esteve cerca de dez minutos sem poder articular palavra. Vilela olhava espantado para todos.

Enfim rompeu a palavra o negociante. Era natural pedir uma explicação; pediu-a; foi-lhe dada. João Lima exprimiu toda a sua cólera contra Mariana.

Flávio lastimara do fundo d’alma a fatalidade que o levou a produzir aquela situaçõa. No delírio de conhecer sua mãe, não se lembrara de mais nada; apenas leu a carta que lhe fora entregue pelo padre Vilela, correra à casa de D. Mariana. Ali tudo se explicara; Flávio preparava-se para sair e não voltar ali mais se fosse preciso, e em todo caso não divulgar o segredo nem ao padre Vilela, quando este e João Lima os surpreenderam. Tudo estava perdido.

D. Mariana recolheu-se ao Convento da Ajuda onde faleceu no tempo da guerra de Rosas. O padre Flávio obteve uma vigaria no interior de Minas, onde veio a falecer de tristeza e saudade. Vilela quis acompanhá-lo, mas o jovem amigo não o consentiu.

— De tudo o que me poderias pedir, disse Vilela, é isso o que mais me dói. — Paciência! respondeu Flávio; eu preciso da solidão.

— Tê-la-ás?

— Sim; preciso da solidão para meditar nas conseqüências que o erro de um pode trazer a muitas existências.

Tal é a moralidade desta triste história.

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