Por Machado de Assis (1870)
começou a gostar da rapariga. Infelizmente para ela, coincidiu este ataque de frente com um ataque de flanco, e a praça foi tomada por uma rival mais feliz.
Não desanimou a moça. Dirigiu os seus tiros para outro ponto, desta vez não pegaram as bichas, o que obrigou a bela pretendente a lançar mão de terceiro recurso. Com mais ou menos felicidade, andou Miloca nesta campanha durante um ano, sem alcançar o seu máximo desejo.
A derrota não lhe quebrou o orgulho; antes lhe deu um toque de azedume e hipocondria, que a fez um tanto insuportável. Mais de uma vez pretendeu deixar a casa da amiga e ir professar em algum colégio. Mas Leopoldina resistia sempre a esses projetos, já mais veementes que ao princípio. O despeito parecia aconselhar à bela órfã o completo esquecimento de seus planos matrimoniais. Compreendia agora que, talvez pela mesma razão com que ela recusara o amor de Adolfo, recusavam-lhe agora o amor dela. A punição, dizia ela consigo, fora completa.
A imagem de Adolfo surgiu então em seu espírito atribulado e abatido. Não se arrependeu do que fizera; mas lamentou que Adolfo não estivesse em posição cabal de lhe realizar os seus sonhos e ambições.
"Se assim fosse, pensava Miloca, eu seria hoje feliz, porque esse amava-me." Tardias queixas eram aquelas. O tempo corria, e a moça com o seu orgulho se definhava na solidão povoada da sociedade a que aspirava desde os tempos da sua mediania.
CAPÍTULO V
Uma noite, estando no teatro, viu em um camarote fronteiro duas moças e dois rapazes; um dos rapazes era Adolfo. Miloca estremeceu; involuntariamente, não de amor, não de saudade, mas de inveja. Seria uma daquelas moças esposa dele? Ambas eram distintas, elegantes; ambas formosas. Miloca perguntou a Leopoldina se conhecia os dois rapazes; o marido da amiga foi quem lhe respondeu:
— Só conheço um deles; o mais alto.
O mais alto era Adolfo.
— Parece-me que também o conheço, disse Miloca, e foi por isso que lho perguntei. Não é um empregado do Tesouro?
— Talvez fosse, respondeu o deputado; agora é um amável vadio.
— Como assim?
— Herdou do padrinho, explicou o deputado.
Leopoldina que tinha assentado o binóculo para ver as moças perguntou: — Será casado com alguma daquelas moças?
— Não; é amigo da família, respondeu o deputado; e parece que não está disposto a
casar.
— Por quê? aventurou Miloca.
— Dizem que teve um amor infeliz outrora.
Miloca estremeceu de alegria, e pôs o binóculo para o camarote de Adolfo. Este pareceu perceber que era objeto das indagações e conversas das três personagens, e já havia conhecido a antiga amada; todavia, disfarçou e conversou alegremente com as moças do seu camarote.
Depois de algum silêncio, disse Miloca:
— Parece que o senhor acredita em romances; pois há quem conserva assim um amor a ponto de não querer casar?
E como se se arrependesse desta generalidade, emendou: — Nos homens é difícil encontrar tamanha constância às afeições passadas.
— Nem eu lhe disse que ele conservava essa afeição, observou o deputado; esse amor infeliz do meu amigo Adolfo...
— É teu amigo? perguntou Leopoldina.
— É, respondeu o marido. E continuou: Esse amor infeliz do meu amigo Adolfo serviu para lhe dar uma triste filosofia a respeito de amores. Jurou não casar... — E onde escreveu esse juramento?
— Não acredita que ele o cumpra? perguntou sorrindo o marido de Leopoldina. — Francamente, não, respondeu Miloca.
Dias depois levou o deputado à casa o seu amigo Adolfo e o apresentou às duas senhoras. Adolfo falou a Miloca como pessoa de seu conhecimento, mas nenhuma palavra ou gesto revelou aos donos da casa o sentimento que ele tivera outrora. A mesma Miloca compreendeu que tudo estava extinto no coração do rapaz; mas não era fácil reviver a chama apagada? Miloca contava consigo, e reuniu todas as suas forças para uma luta suprema.
Infelizmente era verdade o que dissera o marido de Leopoldina. Adolfo parecia ter mudado completamente. Já não era o rapaz afetuoso, e tímido de outro tempo; mostrava se agora gelado em cousas do coração. Não só o passado estava extinto, como nem era possível criar-lhe nenhum presente. Miloca compreendeu isto no fim de alguns dias, e todavia não desanimou.
Animou-a nesse propósito Leopoldina, que percebeu a tendência da amiga para o rapaz sem todavia conhecer uma sílaba do passado que havia entre ambos. Miloca negou a princípio, mas conveio-lhe dizer tudo, e mais do que isso, não pôde resistir, porque ela começava a amar deveras o rapaz.
— Não desanimes, lhe disse a amiga; estou que hás de triunfar.
— Quem sabe? murmurou Miloca.
Esta pergunta foi triste e desanimada. Era a primeira vez que ela amava, e isto lhe pareceu uma espécie de castigo que a Providência lhe infligia.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Miloca. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1870.