Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ – Delírio de solteiros e casados, de rapazes e de velhos; a Acrobata é o tipo da unidade, porque bebe, come, sonha, deseja e exige sempre uma coisa única – dinheiro; dá caridade, porque ama sem exceção e com perfeita indiferença a todos que lhe dão – dinheiro. A Acrobata é um prodígio; madrinha, subamos à varanda, acompanhemos a Acrobata.

CENA V

VIOLANTE, BRAZ, LEOPOLDO e TIMÓTEO

TIMÓTEO (A Leopoldo) – O peixe boi saiu do lago para conversar com o Braz de Souza.

LEOPOLDO (A Timóteo) – Com efeito, é a velha mais horrível que tenho visto; é uma coruja monumental promovida pelo demônio a velha criatura humana. BRAZ – Preclaríssimos amigos! (Cumprimentam-se.) TIMÓTEO – Sr. Braz! minha senhora!

LEOPOLDO – Minha senhora! (A Braz) Como passou de ontem? adivinha-se... perfeitamente ditoso.

BRAZ (Apresentando) – A sra. dª. Violante, irmã do nosso amigo Casimiro. TIMÓTEO – Oh! minha senhora... tenho muita honra... (Fala a Violante.) LEOPOLDO (A Braz) – Mas... é um dragão de feia!

BRAZ (A Leopoldo) – Não me desanimes... estou apaixonado-me; onde a vês, é solteira ainda, e herdou há quatro meses de um tio e padrinho a insignificância de quinhentos contos de réis.

LEOPOLDO (A Braz) – Um! meio milhão! (Olhando) reparando-se bem, não é tão feia, como à primeira vista me pareceu; os óculos e a touca dão-lhe até certa graça...

VIOLANTE – Vamos, Braz. (Cumprimenta aos dois.)

BRAZ (Aos dois) – Até logo. (Indo-se com Violante.) Já deixei um iscado.

VIOLANTE (A Braz) – Quem?

BRAZ (A Violante) – O de pince-nez: é dos três designados por Clemência. (

Vai-se com Violante.)

CENA VI

TIMÓTEO e LEOPOLDO

TIMÓTEO – Ainda não vi a tua bela Clemência; mas a horrorosa tia nos garante o feliz encontro; a tia é a noite que precede a aurora.

LEOPOLDO – A noite... eu gosto da frescura da noite... porém a aurora não tarda a aparecer, e é bela como os amores...

TIMÓTEO – E leviana, inconstante, como as borboletas; olha, há mais namorados de Clemência do que candidatos ao trono de Espanha. Eu não me casava com ela.

LEOPOLDO – Nem eu; quem pensa em casamento! com uns cinqüenta contos de réis de dote seria ouro sobre azul; mas pobre, como é, afigura-se-me um banco de emissão sem fundo de reserva metálico.

TIMÓTEO – E neste maldito tempo, em que andam todos à bolina, furtando o vento.

LEOPOLDO – É verdade, não há casa sólida; a minha começou, que era a quem mais caía com o mel! mas a estagnação do comércio! os sustos e as concentrações do Banco do Brasil, que dantes consolava a gente! a casa ainda vai bem, vai muito bem; mas se eu ajeitasse uma noiva que me enchesse os olhos com o dote, eim?

TIMÓTEO – Para que então perdes o teu tempo com Clemência?

LEOPOLDO – Ora! ela é que o perde comigo; eu divirto-me, namoro-a pela mesma razão porque vou ao teatro, ou ao circo da Guarda-Velha. Se ao menos a tia desse a quinta parte do que possui à sobrinha!

TIMÓTEO – Pois a tia é rica?

LEOPOLDO – Meio milhão!... quinhentos contos de réis de herança, diz o Braz.

TIMÓTEO – Meio milhão! é caso de bater bandeiras: quinhentos contos! que senhora de bem! vale quinhentas vezes mais do que a sobrinha!

LEOPOLDO – Se o Braz não mente, vale. Uma velha bem velha, se é rica, é preferível à moça mais formosa, precisamente porque é a precursora infalível da moça formosa.

TIMÓTEO – Não entendo: mas concordo pela regra da preferência.

LEOPOLDO – A moça tem longa vida diante de si e não morre nem a poder de ceias, de vigílias, de constipações, de indigestões, do diabo, e portanto significa um casamento sem probabilidade de viuvez; a uma noiva bem velha e bem rica enche-se de brilhantes, leva-se a todos os bailes e a todos os teatros, dá-se-lhe sorvetes quando o calor excita mais a transpiração, faz-se cear mayonaise, peru a Eglantine, fiambre e cabeça de porco, até que uma boa indigestão a livre dos trabalhos deste mundo, ficando o marido com o testamento que arranjou, e então ele se consola da morte da velha enfeitando-se com uma noiva moça e bonita... bem entendido, se a fortuna não lhe depara segunda velha ainda mais rica. Vamos procurar Clemência. (Vão-se)

CENA VII

MÁRIO, POLIDORO, logo a ACROBATA e imediatamente CASIMIRO e PORFÍRIO

POLIDORO – A Acrobata é bonita rapariga; mas eu prefiro o amor platônico e as emoções do lasquenet.

MÁRIO – Vai pois ver as damas dos teus baralhos, e deixa-me apanhar de surpresa a Acrobata, e na passagem tomar-lhe contas de certo logro. (Oculta-se) POLIDORO (Afastando-se) – Aí vem ela. (Para e espera) ACROBATA (A um mocinho que lhe sorri) – Cresça e apareça.

CASIMIRO (A Porfírio) – Violante e Clemência nos seguem? (Polidoro faz debalde sinais a Mário)

PORFÍRIO (Olhando para trás) – Não. (Continuam os sinais de Polidoro) CASIMIRO (Quase junto da Acrobata) – Ficas esta noite em casa?

ACROBATA – Isso é conforme: em todo caso não dormirei na rua.

CASIMIRO – Vai passar pelo outeiro...

ACROBATA – Queres dar-me cerveja? (Mário e Casimiro esbarram-se um com o outro) Adeus, pequeno! (Rindo-se)

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...678910...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →