Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Por sua culpa! vivemos em uma guerra aberta... como dois inimigos; mas deixe estar, que hei de perder um dia a paciência; eu sou uma pomba, tenho o melhor gênio do mundo; mas o senhor é um dragão, uma fúria!...
Venâncio já torcia-se até não poder mais; finalmente, depois de muito espremer-se, contentou-se com dizer:
— Sim... sou eu que sou a fúria... há de ser assim mesmo.
— Isto é um martírio!... uma tentação!...
O velho não respondeu palavra.
O silêncio de Venâncio contrafazia talvez a Tomásia, que, sentando-se em uma cadeira longe do marido, deixou-se ficar por muito tempo muda, como ele; depois, como se tomasse nova resolução, soltou um suspiro, e disse:
— Quando eu estou pronta a viver em paz eterna com ele, o cruel volta-me as costas!...
— Eu, Tomásia?!...
— Sim, tu, tornou ela com voz menos áspera, e eu não posso viver assim... isto me envelhece... tu me fazes cabelos brancos.
Venâncio olhou espantado para Tomásia, que, deixando o lugar que ocupava, foi sentar-se ao lado do marido, passando-lhe amorosamente o braço em derredor do colo. O fenômeno espantava: tão rápida mudança da rabugem para os afagos era para admirar; mas Tomásia o fazia de plano.
Vendo, contra os hábitos de vinte e dois anos, que o marido resistia à sua vontade, e que apesar de todo o esforço a festa do batizado continuava duvidosa, a mulher pensou, durante a noite, em um ataque de nova espécie contra Venâncio: ela devia estar enfadada na sala, exasperar o marido até fazê-lo gritar, fingir-se, então, pela primeira vez, temerosa, humilhar-se, enternecêlo, e depois a poder de lágrimas conseguir o que, então, não havia podido o seu quero absoluto. A paciência de Venâncio tinha neutralizado o estratagema de Tomásia: o cordeiro, sem saber e sem querer, opôs-se admiravelmente à raposa; e, conhecendo a mulher que seu marido não se assomava com as loucuras que lhe foi dizendo para levar a efeito o plano que concebera, fez-se por si mesma carinhosa e meiga.
O pacato velho começou por espantar-se do que observava; quando, enfim, Tomásia passou gradualmente da meiguice à submissão, ele mirou-se todo inteiro a ver se havia alguma novidade de meter medo em sua pessoa; não descobrindo nada que lhe explicasse o fenômeno, e, tendo de dar-se necessariamente uma explicação, imaginou que nesse dia a sua voz tinha um timbre assustador, que de seus olhos talvez partissem vistas magnéticas... fulminantes... terríveis. Sucedeu a Venâncio o que acontece a todo o homem medroso: apenas acreditou que sua mulher recuava, concebeu a possibilidade de chegar a sua vez de valentão, e determinou aproveitar-se dela; ele! a bigorna de vinte e dois anos passar milagrosamente a ser martelo!... semelhante idéia desenhou-se brilhantemente aos olhos do velho, que bem depressa cerrou as sobrancelhas, fez-se carrancudo e dispôs-se a representar o papel de mau.
Tomásia, que tinha assentado de pedra e cal fechar a discussão calorosa, que há tantos dias era debatida entre seu marido e ela, não perdia um só dos movimentos deste, bebia-lhe todos os pensamentos com vistas fingidamente tímidas, e, ao conhecer que o adversário caía nas suas redes, disse com voz terna:
— Pois bem, meu Venâncio, de hoje avante viveremos em completa harmonia.
— Se a senhora o quiser... seja! respondeu com mau modo o pobre homem.
Tomásia reprimiu a custo uma gargalhada; tal era o pouco-caso que fazia do marido. Venâncio levantou-se, e, cruzando as mãos atrás das costas, começou a passear ao longo da sala; a mulher levantou-se também e, acompanhando-o de perto, travou com ele o diálogo seguinte:
— Estimo achar-te disposto à paz, disse ela; portanto, meu amigo, tratemos de estabelecêla com bases sólidas: queres?...
— Se a senhora o quiser... isso para mim é quase indiferente.
Venâncio não cabia em si de alegre com a sua inopinada vitória, e prometia aproveitar-se dela.
— Pois, para isso, continuou Tomásia, troquemos penhores de paz: devemos pedir um ao outro uma prova de amor... um extremo de ternura: então, tu o que exiges de mim?...
— Coisa nenhuma.
— Não sou eu assim: tenho que te pedir, meu amigo...
— Vá dizendo.
—E ainda não adivinhaste, ingrato?...
— Ora, adivinhem lá o que quer a Sr.ª D. Tomásia! então não está boa?...
— Cruel, não compreendes que quero falar do batizado de nossa filha?...
— Batizar-se-á.
— E daremos um sarau digno de nós, não é assim?...
— Não é assim, não senhora.
— Ah! já vejo que estás brincando! tu não havias de querer que o batizado de nossa querida filhinha se fizesse como o de qualquer lheguelhé .
— Indeferido.
— Meu Venâncio!...
— Não há que deferir, não há que deferir.
— Que dirão as famílias que nos conhecem?... que conceito farão de nós?...
— Sustento o meu primeiro despacho.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.