Por Machado de Assis (1876)
O padre Sá, dizendo isto, sentiu uma lágrima borbulhar-lhe nos oLhos, enxugou-a disfarçadamente. Contudo, Pedro viu-lhe o gesto e abraçou-o.
— Descanse, não há de ser nada, disse ele.
— Deus te ouça, filho!
VI
A tia Mônica, de quem se falou em um dos capítulos anteriores, era uma preta velha, que havia criado a sobrinha do padre e a amava como se fora sua mãe. Era liberta; o padre deu-lhe a liberdade logo que morrera a mãe de Lulu, e Mônica ficou servindo de companheira e protetora da menina, que não tinha outro parente, além do padre e do primo. Lulu nunca adoecera gravemente; ao vê-la naquele estado, a tia Mônica ficou desatinada. Passado o primeiro momento, foi um modelo de paciência, dedicação e amor. Velava as noites junto da cabeceira da doente, e apesar de estar toda entregue aos cuidados de enfermeira ainda lhe sobrava tempo para tratar da direção da casa. A doença foi longa; durou cerca de quinze dias. A moça ergueu-se enfim da cama, pálida e abatida, mas livre ele todo o mal. A alma do tio sentiu-se renascer. A certeza dera-lhe vida nova. Ele padecera muito durante aqueles quinze mortais dias; e Pedro fora testemunha de sua longa aflição. Não foi só testemunha impassível, nem o consolou com palavras triviais; tomou boa parte nas dores do velho, fez-lhe companhia durante as noites de maior perigo.
Alexandre não foi menos assíduo nem menos dedicado à família; seu rosto austero e frio não revelava a dor íntima; mas ele sentia, decerto, a doença da prima e a aflição do padre. Suas consolações eram antes religiosas do que puramente humanas. — Descanse que ela há de viver, dizia ele; mas dado que o Senhor a leve, podemos ter a certeza de que leva um anjo mais para o coro celeste. De lá veio, para lá tornará, tão puro como os que rodeiam o trono de Deus.
Pedro repeliu esta idéia.
— Muitos são os anjos que estão no céu — dizia; e poucos, raríssimos, os que Deus consente que desçam a este mundo. Por que há de levar aquele, que é a felicidade e a glória de nosso bom mestre?
As palavras de ambos entravam no coração do padre; mas por mais cristão que ele fosse, e era-o muito, as do filho de dona Emiliana, egoísmo da afeição humana, dominavam por instantes o sentimento religioso e a resignação cristã.
No dia em que a moça foi declarada sem perigo, Pedro chegara à Gamboa, não estando o padre em casa. A tia Mônica deu-lhe a agradável notícia. O rosto do moço expandiu-se; sua alegria fê-lo corar.
— Livre! exclamou ele.
— Livre.
— Quem o disse ?
— O doutor...
— Ela está mais animada?
— Muito animada.
— Oh! diga-lhe de minha parte que dou graças a Deus pelo seu restabelecimento. Cinco dias depois, Lulu saiu do quarto. A figura delicada da moça parecia mais bela e adorável depois da enfermidade. Um largo roupão branco envolvia-lhe o corpo emagrecido pela doença; os olhos amortecidos e a palidez do rosto davam-lhe um aspecto delicado e triste ao mesmo tempo. Vivia a moça; e não só a saúde voltara, mas com a saúde uma alegria não sentida até aquele dia, alegria toda filha do regozijo das pessoas que a amavam, da dedicação e zelo de que fora objeto durante os dias de perigo.
A convalescença foi rápida; durou cerca de oito dias. Durante esse tempo, freqüentou Pedro a casa do mestre, como nos dias anteriores, sem nada lhe perguntar acerca de seus próprios negócios, não só porque era indiscrição fazê-lo em momento como aquele, e quando o padre apenas começava a saborear o restabelecimento da sobrinha, como porque esta fazia que as horas passassem depressa. Não se tratam negócios sérios sem tempo, e Pedro não tinha tempo.
Lulu não podia ler; e nem sempre a entretinham as histórias da tia Mônica. Pedro lia para ela ouvir alguns livros morais que achava na estante do padre, ou algum menos austero, ainda que honesto, que de casa levava para aquele fim. Sua conversa, além disso, era extremamente agradável; a dedicação sem limites. Lulu via nele uma criatura boa e santa; e o hábito de todos os dias veio a torná-lo necessário.
No primeiro dia em que ela pôde chegar à janela, Pedro arrastou para ali uma poltrona de couro, deu o braço à moça e fê-la sentar-se. Eram onze horas da manhã; a atmosfera estava limpa e clara e o mar tranqüilo. A moça respirou a largos haustos, enquanto Pedro ia buscar o banquinho em que ela pousasse os pés.
— Pensei nunca mais ver isto, disse ela, agradecendo-lhe com um sorriso que fez baixar os olhos ao moço.
— Não fale assim! suplicou este depois de algum tempo.
— Agora não há perigo; estou boa. Haviam de sentir a minha morte, creio; mas eu sentiria igualmente se deixasse a vida. Morrer moça deve ser triste!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.