Por Gregório de Matos (1650)
Cuja boca é mentideiro,
onde acode todo o vulgo
a escutar sobre la tarde
las mentiras como punho:
Mentideiro freqüentado
de quantos senhores burros
perdem o nome de limpos
pela amizade de um sujo.
Cuja língua é relação
aonde acham os mais puros
para acusar um fiscal
para cortar um verdugo.
Zote muito parecido
aos vícios todos do mundo,
pois nunca os alheios corta,
sem dar no seu próprio escudo:
Santo Antônio de baeta,
que em toda a parte do mundo
os casos, que sucederam,
viu, e foi presente a tudo:
O Padre papa jantares,
hóspede tão importuno,
que para todo o banquete
traz sempre de trote o bucho:
Professo da providência,
que sem lograr bazaruco,
para passar todo um ano
nem dous vinténs faz de custo:
Que os amigos o sustentam,
e lhe dão como de juro
o jantar, quando lhes cabe
a cada qual por seu turno.
Essa vez, que tem dinheiro,
que é de sete em sete lustros:
três vinténs com um tostão,
ou dous tostões quando muito:
Com um vintém de bananas,
e de farinha dous punhos,
para passar dia, e meio
tem certo o pão, e conduto:
Lisonjeiro sem recato
adulador sem rebuço,
que por papar-lhe um jantar
de um sacristão faz um Núncio:
De um Tambor um General,
um Branco de um Mamaluco,
de uma senzala um palácio,
e um galeão de um pantufo.
Em passando a ocasião,
tendo já repleto o bucho,
desanda co'a taramela,
e a todos despe de tudo:
Outro sátiro de Esopo,
Que co mesmo bafo astuto
Esfriava o caldo quente,
E aquentava o frio punho:
O Zote, que tudo sabe
O grande Jurisconsulto
Dos Litígios fedorentos
Desta cidade monturo:
O Bártolo de improviso,
O subitâneo Licurgo,
Que anoitece um sabe-nada,
E amanhece um sabe-tudo:
O Letrado grátis dato,
e o que com saber infuso
quer ser Legista sem mestre,
canonista sem estudo:
Agraduado de douto
na academia dos burros,
que é braba universidade
para doutorar brandúzios:
desaforado sem susto,
entremetido sem riso,
e sem desar abelhudo:
Filho da puta com dita,
alcoviteiro sem lucro,
cunhado do Mestre-Escola,
parente que preza muito.
Fraquíssimo pelas mãos,
e valentão pelo vulto,
no corpo um grande de Espanha,
no sangue escória do mundo.
Este tal, de quem falamos,
como tem grandes impulsos
de ser batiza-crianças,
para ser soca-defuntos:
A Majestade d'El-Rei
tem já com mil esconjuros
ordenado, que o não colem
nem numa igreja de juncos.
Ele por matar desejos
foi-se ao adro devoluto
da Senhora do Loreto,
onde está Pároco intruso:
Ouvir é um grande prazer,
e vê-lo é um gosto sumo,
quando diz "os meus fregueses”
sem temor de um abrenuntio.
Item é um grande prazer
nas manhãs, em que madrugo
vê-lo repicar o sino,
para congregar o vulgo.
E como ninguém acode,
se fica o triste mazulo
em solitária estação
dizendo missa aos defuntos:
Quando o Frisão considero,
o menos que dele cuido,
é ser Pároco boneco
feito de trapos imundos.
RETRATO DO MESMO CLÉRIGO.
Pois me enfada o teu feitio,
quero, Frisão, neste dia
retratar-te em quatro versos
as maravi, maravi, maravilhas.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão, da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
A cara é um fardo de arroz,
que por larga, e por comprida
é ração de um Elefante
vindo da Índia.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas
A boca desempenada
é a ponte de Coimbra,
onde não entram, nem saem,
mais que mentiras.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
Não é a língua de vaca
por maldizente, e maldita,
mas pelo muito, que corta
de Tiriricas.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
(continua...)
BRASIL. Crônica do Viver Baiano Seiscentista. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16657. Acesso em: 30 nov. 2025.