Por Machado de Assis (1865)
Não te direi o que se passou nessa noite. Emílio parecia sofrer, não estava alegre como dantes; ao contrário, era naquela noite de uma taciturnidade, de uma tristeza que incomodava a todos, mas que me mortificava atrozmente, a mim que me fazia causa das suas dores.
Pude falar-lhe em uma ocasião, a alguma distância das outras pessoas.
- Desculpe-me, disse-lhe eu, se alguma palavra dura lhe disse. Compreende a minha posição. Ouvindo bruscamente o que me disse não pude pensar no que dizia. Sei que sofreu; peço-lhe que não sofra mais, que esqueça...
- Obrigado, murmurou ele.
- Meu marido falou-me de projetos seus...
- De voltar à minha província, é verdade.
- Mas doente...
- Esta doença há de passar.
E dizendo isto lançou-me um olhar tão sinistro que eu tive medo. - Passar? passar como?
- De algum modo.
- Não diga isso...
- Que me resta mais na terra?
E voltou os olhos para enxugar uma lágrima.
- Que é isso? disse eu. Está chorando?
- As últimas lágrimas.
- Oh! se soubesse como me faz sofrer! Não chore; eu lho peço. Peço-lhe mais. Peço-lhe que viva.
- Oh!
- Ordeno-lhe.
- Ordena-me? E se eu não obedecer? Se eu não puder?... Acredita que se possa viver com um espinho no coração?
Isto que te escrevo é feio. A maneira por que ele falava é que era apaixonada, dolorosa, comovente. Eu ouvia sem saber de mim. Aproximavam-se algumas pessoas. Quis pôr termo à conversa e disse-lhe:
- Ama-me? disse eu. Só o amor pode ordenar? Pois é o amor que lhe ordena que viva!
Emílio fez um gesto de alegria. Levantei-me para ir falar às pessoas que se aproximavam.
- Obrigado, murmurou-me ele aos ouvidos.
Quando, no fim do serão, Emílio se despediu de mim, dizendo-me, com um olhar em que a gratidão e o amor irradiavam juntos: - Até amanhã! - não sei que sentimento de confusão e de amor, de remorso e de ternura se apoderou de mim.
- Bem; Emílio está mais alegre, dizia-me meu marido.
Eu olhei para ele sem saber o que responder.
Depois retirei-me precipitadamente. Parecia-me que via nele a imagem da minha consciência.
No dia seguinte recebi de Emílio esta carta:
Eugênia. Obrigado. Torno-me à vida, e à senhora o devo. Obrigado! fez de um cadáver um homem, faça agora de um homem um deus. Ânimo! ânimo!
Li esta carta, reli, e... dir-to-ei, Carlota? beijei-a. Beijei-a repetidas vezes com alma, com paixão, com delírio. Eu amava! eu amava!
Então houve em mim a mesma luta, mas estava mudada a situação dos meus sentimentos. Antes era o coração que fugia à razão, agora a razão fugia ao coração.
Era um crime, eu bem o via, bem o sentia; mas não sei qual era a minha fatalidade, qual era a minha natureza; eu achava nas delícias do crime desculpa ao meu erro, e procurava com isso legitimar a minha paixão.
Quando meu marido se achava perto de mim eu me sentia melhor e mais corajosa...
Paro aqui desta vez. Sinto uma opressão no peito. É a recordação de todos estes acontecimentos.
Até domingo.
Capítulo VI
Seguiram-se alguns dias às cenas que eu te contei na minha carta passada.
Ativou-se entre mim e Emílio uma correspondência. No fim de quinze dias eu só vivia do pensamento dele.
Ninguém dos que freqüentavam a nossa casa, nem mesmo tu, pôde descobrir este amor. Éramos dous namorados discretos ao último ponto.
É certo que muitas vezes me perguntavam por que é que eu me distraía tanto e andava tão melancólica; isto chamava-me à vida real e eu mudava logo de parecer.
Meu marido sobretudo parecia sofrer com as minhas tristezas.
A sua solicitude, confesso, incomodava-me. Muitas vezes lhe respondia mal, não já porque eu o odiasse, mas porque de todos era ele o único a quem eu não quisera ouvir destas interrogações.
Um dia voltando para casa à tarde chegou-se ele a mim e disse: - Eugênia, tenho uma notícia a dar-te.
- Qual?
- E que te há de agradar muito.
- Vejamos qual é.
- É um passeio.
- Aonde?
- A idéia foi minha. Já fui ao Emílio e ele aplaudiu muito. O passeio deve ser domingo à Gávea; iremos daqui muito cedinho. Tudo isto, é preciso notar, não está decidido. Depende de ti. O que dizes?
- Aprovo a idéia.
- Muito bem. A Carlota pode ir.
- E deve ir, acrescentei eu; e algumas outras amigas.
Pouco depois recebias tu e outras um bilhete de convite para o passeio.
Lembras-te que lá fomos. O que não sabes é que nesse passeio, a favor da confusão e a distração geral, houve entre mim e Emílio um diálogo que foi para mim a primeira amargura de amor.
- Eugênia, dizia ele dando-me o braço, estás certa de que me amas? - Estou.
- Pois bem. O que te peço, nem sou eu que te peço, é o meu coração, é o teu coração que te pedem, um movimento nobre e capaz de nos engrandecer aos nossos próprios olhos. Não haverá um recanto no mundo em que possamos viver, longe de todos e perto do céu?
- Fugir?
- Sim!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Confissões de uma Viúva Moça. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1865.