Por Padre Antônio Vieira (1670)
110. Pronunciou Deus, depois do primeiro pecado, a lei universal da morte, à qual quis que ficasse sujeito Adão e todo o gênero humano, e no mesmo ponto em que fez a lei, fez também que fosse inviolável. A lei da morte parece inviolável de sua mesma natureza, mas naquele tempo podia-se violar facilmente, porque comendo Adão, e qualquer outro homem, do fruto da Árvore da Vida, ficava isento de morrer. E que fez Deus?Nefortte sumat etiam de ligno vitae, et comedat, ei vivat in aeternum (Gên. 3,22): Por que não aconteça que Adão, assim como quebrou a primeira lei, comendo da árvore da ciência, quebre também a segunda, comendo da árvore da vida, e fique imortal: Collocavit ante paradisum cherubim, et flammeum gladium, ad custodiendam viam ligni vitae:12 Pôs à porta do paraíso um querubim com uma espada de fogo, para que, sem exceção, defendesse a entrada a todos, e se algum intentasse eximirse da lei de morrer, morresse primeiro. – Esta foi a ordem cerrada do querubim, e este o rigor indispensável da lei, da qual não quis Deus que fosse privilegiado nem seu próprio Filho. O privilégio chama-se em Direito vulnus legis, ferida da lei. E o poder e espada do legislador não há de ser para ferir as leis, senão para ferir, matar e queimar a quem intentar quebrá-las, que por isso a espada do querubim era espada, e de fogo. Bem pudera Deus cortar a Árvore da Vida, com que se escusavam todos aqueles aparatos de horror; quis porém que a árvore ficasse em pé, e a lei se guardasse contudo inviolavelmente, para que entendessem os legisladores que, ainda que eles possam dispensar nas leis, e o modo da dispensação seja fácil, nem por isso o hão de permitir. – Mas, Senhor, a árvore da vida está carregada de frutos: uns nascem, outros caem, e todos se perdem, podendo-se aproveitar com tanta utilidade. Oh! malditas utilidades! Este é o engano que perde aos príncipes. Dispensam-se as leis por utilidades – que ordinariarnente são dos particulares, e não suas – e abre-se a porta à ruína universal, que só se pode evitar com a observância inviolável das leis. Percam-se os frutos da árvore da vida, que são a mais preciosa coisa que Deus criou; percam-se as mesmas vidas, e não se recupere a imortalidade; morra e sepulte-se o mundo todo, mas a lei não se quebre nem se dispense.
111. E que se seguiu deste rigor indispensável da lei? Seguiu-se aquele desengano universal que pregou Davi: Quis est homo qui vivet, et non videbit mortem (Sl. 88, 4): Que homem há que viva, e não haja de morrer? – E, desenganados uma vez os homens de que a lei era inviolável, sendo a morte a coisa mais aborrecida, e a vida a mais amada, ninguém houve jamais que se atrevesse, nem lhe viesse ao pensamento intentar ser dispensado para não morrer. Guardem-se as leis tão severa e inviolavelmente, que se desenganem todos que se não hão de dispensar, e com o não que elas dizem se livrarão os príncipes de o dizer. Mas porque alguns príncipes são de tão bom coração, ou de tão pouco, que nem à mãe dos Zebedeus, nem a seus filhos se atrevem a dizer: Nescitis quid peratie,13 eles tomam confiança para pedir, as petições saem despachadas, e o não das leis caem sobre elas, e não sobre o que proíbem. Tanto que o proibido se dispensa, logo a lei não é lei, não só porque o que se concede o um não se pode negar a outros, senão também, e muito mais, porque o que se concede a um, que o pede, também se há de conceder aos outros, ainda que o não peçam.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.