Por Padre Antônio Vieira (1655)
74. Se o corpo morto é de um soldado, a ordem dos exércitos, a disposição dos arraiais, a fábrica dos muros, os engenhos e máquinas bélicas, o valor; a bizarria, a audácia, a constância, a honra, a vitória, o levar na lâmina de uma espada a vida própria e a morte alheia: quem fazia tudo isto? A alma. Se o corpo é de um príncipe, a majestade, o domínio, a soberania, a moderação no próspero, a serenidade no adverso, a vigilância, a prudência, a justiça, todas as outras virtudes políticas com que o mundo se governa: de quem eram governadas, e de quem eram? Da alma. Se o corpo é de um santo, a humildade, a paciência, a temperança, a caridade, o zelo, a contemplação altíssima das coisas divinas, os êxtases, os raptos, subido o mesmo peso do corpo e suspendido no ar: que maravilha! Mas isto é alma. Finalmente os mesmos vícios nossos nos dizem o que ela é. Uma cobiça que nunca se farta, uma soberba que sempre sobe, uma ambição que sempre aspira, um desejo que nunca aquieta, uma capacidade que todo o mundo a não enche, como a de Alexandre, uma altiveza como a de Adão, que não se contenta menos que com ser Deus. Tudo isto, que vemos com nossos olhos, é aquele espírito sublime, ardente, grande, imenso: a alma. Até a mesma formosura, que parece dote próprio do corpo, e tanto arrebata e cativa os sentidos humanos, aquela graça, aquela proporção, aquela suavidade de cor; aquele ar, aquele brio, aquela vida: que é tudo senão alma? E se não, vede o corpo sem ela, insta Agostinho: Non facit corpus unde ametur, nisi animus? Aquilo que amáveis e admiráveis não era o corpo, era a alma: Recessit, quod non videtur, remansit quod cum dobre videatur: Apartou-se o que se não via, ficou o que se não pode ver. – A alma levou tudo o que havia de beleza, como de ciência, de arte, de valor, de majestade, de virtude, porque tudo, ainda que a alma se não via, era a alma. Viu S. Francisco de Borja o corpo defunto e disforme da nossa imperatriz Dona Isabel, e que lhe sucedeu? Pela diferença do corpo morto, viu naquele espelho o que era a alma, e como viu o que era a alma, deixou o mundo. Não nos enganara o demônio com o mundo, se nós víramos e conhecêramos bem o que é a alma. Mas já que a não podemos ver em si, vejamo-la em nós; no que o corpo há de sei; vejamos o que ela é.
V
O verdadeiro tudo deste mundo e do outro é a alma, não é o mundo. Deus, o negociador do Evangelho, que deu tudo o que tinha por uma alma. Depois desta última tentação, quando torna o diabo a tentar a Cristo? Como se ajoelha Cristo diante de Judas, se já o demônio tinha entrado nele? Quantos não dobram o joelho ao demônio, não pelo mundo todo, senão por umas partes tão pequenas dele!
75. Então que vos diga o demônio com a boca muito cheia e muito inchada: Haec omnia tibi dabo! Mente o diabo, e troque as balanças: o omnia não há de estar na balança do mundo, senão na balança da alma. O tudo deste mundo e do outro é a alma, não é o mundo. No capítulo doze de São João diz Cristo: Et ego, cum exaltatus fuero aterra, omnia traham adme ipsum (Jo. 12,32): E eu, quando for levantado na cruz, hei de trazer a mim tudo: Omnia. Digam-me agora os doutos, que tudo é este que Cristo havia de trazer a si? Cristo desde o instante da Encarnação, foi Senhor universal de tudo pela união hipostática, pelo direito hereditário da filiação, como Filho natural de Deus, e por outros muitos títulos. S. Paulo: Quem constituit haeredem universorum;15 S. João: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus;16 e o mesmo Cristo: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo.17 Pois se Cristo era, e sempre foi Senhor de tudo, que tudo era este que diz que há de adquirir e trazer a si na cruz? Era o tudo que só é tudo: as almas. Assim a resolve S. Crisóstomo, S. Cirilo, Teofilato, Beda, Leôncio, e todos. Desde o instante da Encarnação foi Cristo absoluto Senhor de todas as criaturas, quanto ao domínio e quanto à sujeição; só das almas, ainda que era Senhor quanto ao domínio, quanto à sujeição não o era, porque estavam cativas e escravas do demônio e do pecado. E como Cristo na cruz havia de redimir, adquirir, sujeitar e trazer a si as almas, este é o tudo a que absolutamente chama tudo: Omnia traham ad me ipsum.
76. E se me perguntardes porque na cruz não trouxe a si atualmente mais que uma só alma, a da bom ladrão, foi porque entendêssemos que o tudo de que falava, não eram só todas as almas coletivamente, senão qualquer e cada uma delas. Assim o declarou admiravelmente a versão siríaca: Unum quem que traham ad me ipsum.18 Todas, tudo; cada uma, tudo. A vossa alma é tudo, a minha tudo, a de Dimas e a de qualquer homem, tudo: omnia, unum quem que. Mas para que são versões nem exposições, se temos o mesmo autor da texto? Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerenti bonas margaritas; inventa una pretiosa margarita, dedit omnia sua, et comparavit eam (Mt. 13,45 s). Um mercador – diz Cristo – que negociava e tratava em pérolas; achando uma, deu tudo quanto tinha, e comprou-a. – Quem é o mercador, qual é a pérola, e que é o tudo que deu por ela? O mercador – diz Haymo – é Cristo; a pedra preciosa é a alma; o tudo que deu por ela é tudo o que Deus tinha e tudo o que era. De maneira que não por todas, nem por muitas, senão por uma só alma: Una pretiosa margarita, deu Deus tudo o que tinha e tudo o que era, e não uma só vez, nem por um só modo, senão por tantos: Se nascens dedit socium, convescens in edulium, se moriens in pretium, se regnans dat in praemium: Deuse na Encarnação, deu-se no Sacramento, deu-se na cruz, dá-se na glória. E aquilo porque Deus tantas vezes, e por tantos modos, deu tudo, vede se é tudo: Omnia traham ad me ipsum. – A alma, a alma, tentador, é o verdadeiro tudo, e não o mundo, a que tu falsamente dás esse nome: Haec omnia tibi dabo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.