Por Padre Antônio Vieira (1669)
Criado o céu e os elementos, no céu criou Deus os anjos, no ar as aves, no mar os peixes, na terra as plantas, os animais, e ultimamente o homem. Estando porém desta maneira o universo cheio, povoado e ornado de tanta imensidade e variedade de criaturas, diz o texto sagrado que em todas elas não se achava uma que fosse semelhante ao homem: Adae vero non inveniebatur adiutor similis ejus.11 A mim parecia-me que antes se havia de dizer o contrário, porque demonstrativamente se convence que não se acha criatura alguma em todo o mundo que não tenha semelhança com o homem. Todas as criaturas deste mundo, não falando no homem, ou são viventes ou não viventes. Se não são viventes, são os céus, os elementos, as pedras. Se são viventes, ou vivem vida vegetativa, e são as plantas, ou vivem vida sensitiva, e são os animais, ou vivem vida racional, e são os anjos, e tudo isso se acha no homem, porque o homem, dos elementos tem o corpóreo, das plantas tem o vegetativo, dos animais tem o sensitivo, dos anjos tem o racional. Esta foi a razão e o sentido, como notou Santo Agostinho, com que Cristo chamou ao homem toda criatura quando disse aos apóstolos: Praedicate omni criaturue, porque o homem é um compêndio universal de todas as criaturas, e todas as criaturas, cada uma segundo sua própria natureza, estão recompiladas e retratadas no homem. Pois se todas as criaturas, quantas Deus criou neste mundo, têm tanta semelhança como homem, e o homem, por sua própria natureza, é semelhante, não a uma ou algumas, senão a todas as criaturas, como diz o texto sagrado que entre todas as criaturas não se achava semelhante ao homem: Non inveniebatur similis ejus? Porque ainda que o homem, considerado por partes, era semelhante a todas as criaturas, considerado todo o homem, ou o homem todo, nenhuma outra criatura era semelhante a ele. As partes eram semelhantes, o todo não tinha semelhante. De maneira que a mesma semelhança que as criaturas tinham com Adão, dividida, e por partes, era semelhança; unida, e por junto, era diferença Assim também Santo Inácio em respeito dos outros santos, a quem eu sempre respeito. Santo Inácio, parte por parte, era semelhante; todo Santo Inácio, não tinha semelhante. Adão, semelhante sem semelhante entre todas as criaturas; Inácio semelhante sem semelhante entre todos os santos.
No mesmo texto do
Eclesiástico que se nos opunha temos uma confirmação admirável desta
dessemelhança composta e fundada em muitas semelhanças. Diz o texto que Abraão
não teve semelhante: Non est inventus similis illi (Eclo. 44,20), e em prova
deste elogio e desta proposição tão singular vai logo o mesmo texto contando as
excelências e prerrogativas de Abraão. Mas é muito digno de notar que em todas
as coisas que assim se dizem deste grande patriarca, houve outros patriarcas
que foram semelhantes a ele. Diz o texto que recebeu Abraão e observou o pacto
da circuncisão: In carne ejus stare fecit testamentum,13 e isso mesmo fez
Moisés. Diz que foi fiel em sacrificar a seu filho: Fidelis in tentatione
inventus est,14 e isso mesmo fez Jefté. Diz que o fez crescer no mundo:
Crescere illum dedit quasi terrae cumulum,15 e isso mesmo teve José. Diz que
lhe deu Deus por herança de mar a mar, e do rio até os fins da terra:
Haereditare a mari usque ad mare, et a flumine usque ad terminos terrae,16 e
isso mesmo se lê expressamente de Salomão. Diz que lhe deu Deus a bênção de
todas as gentes: Benedictionem omnium gentium dedit illi, e essa mesma benção,
pelas mesmas palavras, deu o mesmo Deus a Isac. Pois se Moisés, Jefté, José,
Salomão, Isac, foram semelhantes a Abraão nas mesmas graças, nas mesmas
excelências, nas mesmas prerrogativas, como diz o oráculo divino: Non est
inventus similis illi: que nenhum se achou semelhante a Abraão? Porque vai
muito de se acharem as prerrogativas divididas em muitos, ou estarem juntas em
um só: Et quae divisa beatos efficiunt collectatenes.18 Abraão, dividido e por
partes, teve muitos semelhantes; todo Abraão, e por junto, ninguém lhe foi
semelhante. As semelhanças de Abraão, divididas, faziam a cada um semelhante a
Abraão; as semelhanças de Abraão, unidas, faziam a Abraão dessemelhante a
todos: Non est inventus similis illi. Ó Abraão, ó Inácio! Abraão semelhante a
todos os patriarcas, mas entre todos os patriarcas sem semelhante; Inácio
semelhante a todos os santos, mas entre todos os santos sem semelhante. E se
não, vejamo-lo nos efeitos.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.