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#Sermões#Retórica

Sermão do Nascimento da Virgem Maria

Por Padre Antônio Vieira (1657)

Não assim aquela luz que hoje nasce, que para todos e para todo o tempo, e para todo lugar é sempre luz. Viram os anjos nascer hoje aquela formosa luz, e admirados de sua beleza disseram assim: Quae est ista quae progreditur quasi aurora consurgens, pulchra ut luna, electa ut sol? Quem é esta que nasce e aparece no mundo, diligente como a aurora, formosa como a lua, escolhida como o sol (Cant. 6,9)? – À aurora, à lua e ao sol comparam os anjos esta Senhora, e parece que dizem menos em três comparações do que diriam em uma. Se disseram só que era semelhante ao sol, diriam mais, porque de sol à lua é minguar, de sol à aurora é descer. Pois por que razão, que não podia ser sem grande razão, uns espíritos tão bem entendidos como os anjos, ajustam umas semelhanças tão desiguais, e comparam a Senhora quando nasce à aurora, à lua, e ao sol juntamente? Deu no mistério advertidamente o papa Inocêncio III. Comparam os anjos a Maria quando nasce, juntamente ao sol, à lua e à aurora, para mostrar que aquela Senhora é luz de todos as tempos. Todos os tempos ou são dia ou são noite, ou são aquela hora de luz duvidosa que há entre a noite e o dia. Ao dia alumia o sol, à noite alumia a lua, à hora entre noite e dia, alumia a aurora. Pois por isso chamam os anjos juntamente à Senhora aurora, lua e sol, para mostrarem que é luz que alumia em todos os tempos. Luz que alumia de dia, como sol; luz que alumia de noite, como lua; luz que alumia quando não é noite nem dia, como aurora. E que são ou que significam estes três tempos? Ouvi agora a Inocência: Lusa lucet in nocte, aurora in diluculo, sol in die. Nox outem est culpa, diluculun poenitentia, dies gratia: A lua alumia de noite, e a noite é a culpa; a aurora alumia de madrugada, e a madrugada é a penitência; o sol alumia de dia, e o dia é a graça. E para todos estes tempos, e para todos estes estados é Maria luz universal. Luz para os justos que estão em graça, luz para os pecadores que estão na culpa, e luz para os penitentes que querem passar da culpa à graça: Qui ergo jacet in nocte culpae, respiciat lunam, deprecetur Mariam; qui surgit ad diluculum poenitentiae, respiciat auroram, deprecetur Mariam; qui vivit in die gratiae, respiciat solem, deprecetur Mariam: Pelo que, conclui exortando o grande pontífice, se sois pecador; se estais na noite do pecado, olhai para a lua, fazei oração a Maria para que vos alumie e vos tire da noite da pecado, para a madrugada da penitência. Se sois penitente, estais na madrugada do arrependimento, ponde os olhos na aurora, fazei oração a Maria, para que vos alumie e vos passe da madrugada da penitência ao dia da graça. Se sois justo, se estais no dia da graça, ponde os olhos no sol, fazei oração a Maria, para que vos sustente e vos aumente nesse dia, porque desse dia ditoso não há para onde passar. – Assim alumia aquela soberana luz universalmente a todos, sem exceção de tempo nem de estado, o Sol de justiça alumia só aos que o temem: Timentibus nomen meum; mas a Luz de misericórdia alumia aos que o temem, porque o temem, e aos que o não temem, para que o temam, e a todos alumia. O Sol de justiça nasce só para as justos, mas a Luz de misericórdia nasce para os justos e mais para as pecadores. E por este modo é mais universal para todos a luz que hoje nasce, do que o mesmo sol que dela nasceu: De qua natus est Jesus.

§VI

Quarta e última razão: a diligência de Maria. Em Caná, ainda não era chegada a hora de Jesus e já era chegada a hora de Maria. A presteza de Cristo e de Maria declaradas por Davi e S João. Maria e o sacramento do batismo. A cousa da perdição das cinco virgens néscias. Admoestação de Habacuc. Maria e a mãe de Jacó.

O quarto e último título porque se deve mais festejar este dia, é por ser a luz mais apressada para nosso bem. Ser mais apressada a luz que o sol, é verdade que vêem os olhos. Parte o sol do oriente e chega ao ocidente em doze horas. Aparece no oriente a luz, e em um instante fere o ocidente oposto, e se dilata e se estende por todos os horizontes, alumiando em um momento o mundo. O sol, como dizem os astrólogos, corre em cada hora trezentas e oitenta mil léguas. Grande correr! Mas toda esta pressa e ligeireza do sol, em comparação da luz, são vagares. O sol faz seu cursa em horas, em dias, em anos, em séculos; a luz sempre em um instante. O sol, no inverno, parece que anda mais tardo no amanhecer, e no verão mais diligente, mas nunca se levanta tão cedo o sol, que não madrugue a luz muito diante dele. Ó luz divina, como vos pareceis nesta diligência à luz natural!



(continua...)

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