Por Machado de Assis (1879)
— Acabe! disse Fernandinha ameaçando-a graciosamente com a mão.
— Acabo: gosta dele.
— Acertou.
O tom era de chasco, mas a idéia acordou-lhe outra, — uma idéia má, pueril, de comédia, — uma idéia de simulação, para o fim de obter pela inveja o que não obtivera pela sugestão de um afeto melhor. Como a esperança é um alimento eterno, Henriqueta viu luzir no rosto da amiga uma certa expressão, que lhe pareceu de júbilo; viu, e perguntou a si mesma — se deveras Fernandinha amava o outro; mas lembrou lhe os dias passados e abanou a cabeça.
Isto passava-se de noite, pouco depois de oito horas. Às nove retirou-se Fernandinha. Henriqueta ficando só com o irmão, pôs-lhe as mãos nos ombros, olhou longo tempo para ele, e disse rindo.
— Urso!
Julião olhou para ela espantado.
— Urso! repetiu a irmã, e retirou-se apressada.
X
Julião ficou muito impressionado com a palavra da irmã. Suspeitou que Fernandinha lhe houvesse feito alguma confidência, e que a repetição daquele nome fosse uma espécie de declaração indireta. Era esta justamente a intenção de Henriqueta; e as coisas levariam outro rumo, se fosse diferente o gênio de ambos.
No dia seguinte, ao encontrarem-se os dois irmãos, trocaram um olhar interrogativo, mas nenhum deles ousou responder nada. Henriqueta lançou mão de um recurso; mandou dizer a Fernandinha que fosse jantar com ela. Tinha idéia de os lançar nos braços um do outro, não literalmente, mas de um modo que chegariam, ao cabo de algum tempo, a esse resultado. Infelizmente, o Julião não apareceu em casa; jantou na cidade com Pimentel.
O Pimentel acompanhou-o depois à casa, à noite, seriam oito horas. Fernandinha estava picada, com a ausência de Julião, e recebeu-o de um modo arrufado e quase triste. Ao contrário, em relação a Pimentel, suas maneiras foram outras, outras as palavras, outros o gesto e o tom. Nessa mesma diferença podia Julião ler alguma coisa que lhe seria propícia; mas ele não conhecia o coração das mulheres, não praticara jamais essa espécie de luta das afeições; viu naquilo uma preterição.
O caso abalou-o; durante aquelas poucas horas dissimulou como pôde, mas a nova fase das coisas parecia feri-lo cruamente. Talvez Fernandinha lhe notou a impressão, porque recrudesceu de afabilidade com o Pimentel, — fez-se o que era, graciosa, estouvada, alegre; — e se a nota intencional era um pouco mais forte do que seria a natural, não deu por isso o irmão de Henriqueta; ele próprio padecia muito.
Mas Henriqueta não padecia menos. Certo, ela via no rosto de Pimentel, ao lado de Fernandinha, alguma coisa parecida com a benevolência superior que se tem com as crianças, — um certo ar que excluía qualquer interesse de natureza mais íntima; além disso, via os olhos do provinciano dirigirem-se muita vez para ela, com a expressão que tinham alguns meses antes, e ela então fugia com os seus. Não obstante, padecia; tinha o ciúme exclusivo que treme até dos mais pueris afagos.
— Urso! pensava ela olhando para o irmão.
E, ao vê-lo tão severo, tão grave, ao contemplar nele o chefe amante e amado da família, sempre tão desvelado e bom, lembrava-lhe a recomendação do pai:
— Vivam um para o outro; — e ia ter com ele, e como que o consolava e se consolava daquele voluntário abandono.
Uma palavra bastava para dar à situação um desenlace feliz e breve; ambos, porém, se obstinavam no silêncio; nenhum deles adivinhara o outro.
Essa primeira noite foi amarga para os dois; as seguintes não o foram menos; logo depois o foram de todo. No fim de oito dias, Henriqueta tentou sondar ainda uma vez o irmão; via-o triste, e suspeitou a verdade; este, que não suspeitara nada, furtou se à curiosidade da irmã.
Henriqueta abanou a cabeça, e depois de um instante de reflexão, disse resolutamente:
— Você gosta de Fernandinha!
Julião fez uma careta de desdém; foi a sua única resposta; Henriqueta contentou-se com ela. Mas se se contentou com a resposta, não se contentou com a solução; era-lhe preciso, à fina força, levá-los ao amor e ao casamento.
Passaram mais oito dias. Uma noite, indo Henriqueta à casa de Fernandinha, achou lá o Pimentel, que já ali tinha estado uma vez ou duas. Achou-os bem; pareceu-lhe sentir que era demais.
— Demais? pensou ela com um gesto de orgulho.
Era demais. Pimentel e Fernandinha tinham aceitado, por despeito, uma situação dúbia e dissimulada; mas o coração, que nem sempre é bom calculista, trocara as intenções, e eles começaram a sentir-se bem ao pé um do outro, e a descobrir que eram bonitos, capazes de amar, e capazes de ser amados. Daí ao amor não distava um oceano, talvez um rio estreito; e esse rio eles o transpuseram, numa noite de luar, ao pé da janela, — tal qual numa balada romântica.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um para o outro. A Estação, Rio de Janeiro, 30 jul. 1879 a 15 out. 1879.