Por Machado de Assis (1872)
Grande número de povo enchia o largo da execução, mas quem pensa o leitor que estava entre os espectadores? Dom Martim mais pálido que a morte, vítima do remorso e da curiosidade, causa indireta do crime e da desgraça. Queria ele ouvir as últimas palavras do condenado, de que receava alguma revelação relativa à sua pessoa.
Subiu Rui as escadas da forca, colocou-se em posição conveniente, abriu a boca para fazer um discurso, mas os tambores cobriram a voz do orador. Imediatamente entrou o carrasco nas honrosas funções que a lei lhe conferia em nome do evangelho, e o corpo de Rui de Leão ficou pendente da forca.
A pouco e pouco foi saindo o povo aterrado com o espetáculo; e em todas as boticas e casas de barbeiro da cidade foi comentado o crime do defunto. Quando veio a noite foi o carrasco tirar da forca o cadáver do réu acompanhado do respectivo ajudante. Cortou a corda e o corpo foi à terra.
- Ai! - disse Rui, - atordoado com a queda.
- Que foi? - perguntou o carrasco ajudante.
- Não sei; foi um gemido de cão.
Aproximaram-se do corpo; mas qual não foi o seu espanto? Rui desatava tranquilamente o laço da corda e dizia:
- Levem-me a uma hospedaria que tenho fome.
O carrasco e o ajudante não ouviram mais do que a palavra - levem-me -; viram o gesto de Rui e deitaram a correr. Toda a cidade ficou em alarma. Só se falava do enforcado que ressuscitara.
- Estava inocente! - gritavam uns.
- É um santo! - diziam outros.
Entretanto o ex-enforcado procurou tranquilamente cousa que comesse e cama em que dormisse.
IV
O desenleio maravilhoso e misterioso deste acontecimento assustou o pai de D. Madalena. A superstição foi grande arma em favor de Rui de Leão, que alguns dias depois ousou apresentar-se em casa da moça e pedi-la em casamento. A leitora aplaude já a recusa de Madalena. Madalena aceitou. Previamente perdoado do crime cometido, Rui de Leão casou com Madalena, e confiou que ao menos teria durante alguns anos uma vida feliz; até que de novo o tomasse o tédio da vida. Entretanto, D. Martim, descontente com o desenlace do caso, explicou a seu modo a ressurreição do rival.
- Foi naturalmente - dizia ele, a um oficial - foi naturalmente acorde entre o réu e o carrasco. Deu-lhe este um laço fraco, e o homem pôde ressuscitar...
- Mas se eu vi o contrário - respondia o oficial.
- Viu mal...
Jurou D. Martim vingar-se de Rui. Como?
Cogitou um meio seguro; estreitou relações com o marido de Madalena. Era para ele grandíssima dor e profundíssimo despeito ver o rival feliz ao lado daquela a quem ele amava apesar de tudo. Mas o ciúme suporta tudo. Quando julgou que as relações estivessem firmadas entre ambos e banido do ânimo de Rui qualquer suspeita contra ele, D. Martim tratou de comprar um dos criados do rival e a poder de patacões conseguiu que o criado se prestasse ao crime.
Costumava Rui tomar uma xícara de chá uma hora depois do jantar. Uma tarde, achando-se todos três na sala, achou-se Rui afrontado; tinha comido muito e a digestão era laboriosa.
- Que sentes mais? - perguntou Madalena.
- Nada mais. Eu já sei qual é o remédio; mande vir o chá mais cedo.
Deu ordem, e o criado trouxe a xícara de chá. D. Martim olhou para o criado, e este fez-lhe sinal de que o veneno estava dentro. Quem olhasse então para D. Martim veria a expressão de triunfo que lhe transluzia no rosto.
- Enfim - disse ele consigo.
Rui tomou tranquilamente o chá, conversou pouco, estendeu-se na cadeira de couro e adormeceu. D. Martim ficou a sós com Madalena.
- Madalena! - disse ele.
- Que ousadia é essa? - disse a moça.
- Ousadia, não. Ouça-me, eu ainda a amo...
- D. Martim, não me parece de cavalheiro o seu proceder.
- Por quê? - perguntou D. Martim com um sorriso infernal.
- Não vê quem ali está?
- Ali?
- Sim.
- Ali está um cadáver.
- Um cadáver? - perguntou a moça ficando pálida.
- Quase. Daqui a dez minutos é um cadáver.
- Explique-se, D. Martim, por quem é!
- Ah! Pensa que eu não teria a minha vingança?
D. Martim estava fora de si; ajoelhou-se aos pés de Madalena; esta fugiu para o interior. No entanto, acordou Rui, bocejou, levantou-se e deu com os olhos em D. Martim, que estava no fundo da sala, mais branco que uma toalha.
- Que tem você? D. Martim...
- Eu nada... - disse D. Martim sem tirar os olhos do rival.
- Pois, senhor - continuou este -, o chá precipitou a digestão, sinto-me melhor. Onde está Madalena?
A moça ouvira a voz do marido e correu à sala.
Dom Martim esperava a todo momento ver cair fulminado o nosso fidalgo e já se arrependera das palavras que dissera nesse sentido a Madalena. Esta perguntou ao marido como se achava; e ele respondeu que muito melhor.
- Proponho que joguemos alguma cousa para passar a noite, que promete ser fria. O primo fica... não?
- Eu... não... mas...
- Fica decerto.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Rui de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, jan./mar. 1872.