Por Eça de Queirós (1940)
Nestes concertos, naturalmente, fala-se muito de Wagner, das suas excentricidades, do seu orgulho, do seu génio, dos seus hábitos. Um artista que esteve em casa dele em Bayreuth, conta-me alguns traços curiosos. O maestro trabalha num salão enorme, com janelas imensas que abrem sobre um jardim, em cima de uma mesa de mármore. Está às vezes quinze a vinte dias sem escrever uma nota: de repente a imaginação vem: o maestro sente-a, e veste imediatamente o seu fato de trabalho. E um costume de veludo, à maneira dos camponeses alemães da Renascença. Abre todas as janelas e escreve doze a quinze horas a fio, atirando os papéis de música para o chão, até haver em toda a sala uma camada espessa. Não emenda, nem corrige. Quando não trabalha passeia só pelos campos adoráveis de Bayreuth, com dois enormes cães terra-nova, que o não deixam. Quando em Bayreuth ele entra num café, todo o mundo o segue, se descobre e deixa de fumar!
Não há por ai ninguém que queira ir explorar a Roidaima? A Roidaima é a grande maravilha geográfica destes tempos. Viajantes exploradores, na Guiana Inglesa, encontraram ultimamente uma montanha de granito, na forma de um dado colossal: os lados são perfeitamente a pique, perpendiculares: o plano superior está a uma altura de alguns mil pés: com fortes óculos de alcance vê-se que há, em cima, uma floresta, e deduz-se, por pássaros de várias formas que se vêem voar, que além de toda uma flora é toda uma vida animal: haverá homens?
Nunca ninguém lá subiu, nunca ninguém de lá desceu; que mistério há ali? Desde o começo do mundo aquele país aéreo está intacto, inexplorado, virgem. É decerto habitado: provam-no as arvores, os pássaros, a água doce que cai em cascatas pelo lado do monte: a largura em cima é de duas léguas.
Que espécie de homens habitam ali? Que raça? Que língua falam? Desde Adão, segundo a Bíblia, ou desde o primeiro macaco, segundo Darwin – habita ali uma tribo, uma nação.
Que civilização tem? Que estranhos animais se encontrarão ainda lá? Que estranhas árvores? Os jornais ingleses pedem, à uma, que se organize uma exploração, com balões, para subir lá e ver! Confesso que é tentador: quantas maravilhas a ciência poderá ali encontrar! É bem possível que lá vivam muitas das raças animais que no resto do globo desapareceram.
E que sensação a do explorador que, ao descer da barquinha do balão, ao aportar àquele mundo aéreo – visse um ser felpudo, um imenso macaco humano, fazendo pastar tranquilamente um rebanho de mastodontes?
III
Londres, 30 de Maio de 1877
Um jornal satírico de Londres, o Fun, publicava há dias o seguinte anúncio:
DEZ LIBRAS DE RECOMPENSA!!
aos exércitos russo e turco, oferecidas pelos correspondentes dos jornais e repórteres, se os ditos exércitos se comprometerem ao seguinte: travar uma batalha digna de um telegrama.
A monotonia da guerra, com efeito, faz a infelicidade dos correspondentes: eu mesmo estive demorando uns dias esta carta na esperança que os Russos ou Turcos, na Ásia ou no Danúbio, me oferecessem caritativamente algum episódio comovente ou algum feito decisivo. Mas nada!
Os Russos continuam a remeter para o Danúbio uma corrente copiosa e infindável de regimentos: Mas, à parte alguns duelos matinais de artilharia entre as duas margens, a campanha europeia do Danúbio – é como um livro de que apenas se escreveu o título. As pessoas ávidas de emoções e que desejam ter os nervos numa sobre-excitação interessante estão descontentes: a guerra apresenta a sensaboria de uma parada; algumas, mais desconfiadas, receiam um logro e que os diplomatas comecem a tratar da paz antes de os generais terem travado a guerra.
Não se perde por esperar, porém, e eu penso que, antes de pouco, a Turquia oferecerá amplamente motivos de sensações. A situação dos Turcos, com efeito, apresenta-se precária. Na Ásia, no Danúbio, em Constantinopla, por todo o império, aparecem, como as primeiras nódoas num corpo que gangrena, os primeiros indícios da catástrofe.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.