Por Eça de Queirós (1925)
D'este modo evito as segundas provas. Imagina que estou a copial-a por meu prazer e divertimento ? Não ! Ê para apressar o trabalko. Mas se ainda assim não acreditar na minha ardente vontade de o livro na rua em dois me zes — então vou d'aqui por deante mandar-lhe o original, como elle sae, crivado d'emendas —e na typographia que se avenham. que faço tudo o que é possivel para dar A Capitai para meados d'Abril, ou antes, q.lerendo «Deus
Vemos que n'esta epocha, meu Pac continuava a tra' balhar activamente na Capital. Mas temos aqui nova lacuna documental. Sahiu a segunda edição* refundida, do Padre Amaro, e, por uma coincidencia infeliz, torna a faltar a correspondencia entre o auctor e o editor. Assim não se explica bem que em d'Agosto de 80, meu Pae annuncie a Ernesto Chardron : Logo que termine os Matas, que estão por c dias, estou livre para me entregar todo á conclusão da Capi tal, que irá depressa, querendo Deus '
Ficára então A Capital preterida em beneficio dos Matas ? De resto o editor devia saber o que para meu Pae significa. vam estas palavras: apor diass, tratando-se de revisão litteraria. E effectivamente Os Maias cresciam % como crescera a sua antecessora, A Tragedia da Rua das Flores, e como crescera A Capital. Em 80, os Maias pareciam estar por dias: levaram oito annos a chegar até ao publico.
Como tomou o editor este preterimento da Capital? Ha aqui, infelizmente, outra lacuna na correspondencia que não me permitte dizel-o. SO um anno depois, em {6 de Janeiro de 81, tomamos a ouvir fallar no livro, mas sem grande interesse : meu Pae trabalha ainda na Capital a aqui e além, mas trabalho casual>. Todo o seu enthusiasmo vae para os Malas. A nova obra absorve-o, toma-lhe o tempo todo : . . . Tem razão, mil vezes razão a proposito da Capitai I Mas que quer ? Metti-me n'esta empreza dos Maias, que deviam ser ape« nas uma novena e se tornaram um verdadeiro romance I E tenho posto todo o meu tempo a trabalhar n'elle.
Nao creia que náo tenha trabalhado tambem n'ella (na Caepitat), aqui e além, mas trabalho casual que pouco adianta.
Os Matas absorveram-me . .. • Sente-se no tom carta, apezar das vagas promessas, que a Capital está condemnada. Cansaço do assumpto ? Aborrecimento pelas discussões com o editor que o livro suscitára Quem o poderá dizer ? Trabalhara n'ella durante mais de dois annos, escrevera-a, recopiara-a, refundira-a em parte, emendara-lhe pelo menos metade dos capitulos ; depois, outros trabalhos intervieram, c outros estudos, outros livros o chamaram. t Isto estava na natureza do artista, e a historia devia repetir-se, como sempre se repete a historia : annos depois, a proposito de S. Frei Gil* que elle deixara estendido na relva, á beira d'um rio daro•, meu Pae dizia a Silva Pinto : continuara ene jámafs a sua Jornada para Toledo ? Não sei. Outros esc tudos, outros livros me teem chamado — e até outros santos que me reteem pela sua santidade mais dôce e mais simples. E assim o manuscripto do S. Frei GII, esquecido, ia fazer com. panhia ao esquecido manuscripto da Capital.
Com effeito, passam-se mezes, annos até, sem nada sabermos do romance. A correspondencia com o editor parece ter cessado — ou desappareceu — até que, a {6 de Março de 83, perante as reclamações de Chardron, meu Pae limita-se a responder friamente : cv. Ex.a tem razão em tudo o que diz a c respeito do seu direito d'editar a Capital. Esse direito adqui riu-o de facto, tendo começado a impressão d'uma especie de novella que tinha esse titulo e que originou o romance
Comtudo, é intenção minha que, querendo Deus, seja ainda c V. Ex. a , que edite A Capital. Tudo está em nos entenderC mos . . . .D
Entenderam-se ? Sobre A Capital, certamente que não, -pois que não tornamos mais a ouvir fallar no livro. Comtudo nao se separam ; faltam porém no archivo da Casa Chardron as cartas que poderiam dizer a que accordo definitivo chegaram o auctor e o editor. Sabe,se apenas que em 85, dous annos depois, Ernesto Chardron adquire Os Maias, vindo a falecer d'ahf a pouco. Succedem-lhe na casa Editora os Srs. Lugan 9 Genelioux : trocam-se cartas, renovam-se contractos, mas da Capital nunca mais ee falla. Depois, publica-se o Mandarim, imprimem-se Os Maias, lança-se a Revista de Portugal, apparecem as primeiras cartas de Fradique.
Estavarn• definitivamente postos de parte todos estes trabalhos de mocidade: A Tragedia da Rua das Flores, A Capital, O Alves, o Conde d'Abranhos; e todo esse mundo que um mo. mento vivera tão intensamente no espirito do artista, mergulha melancolicamente no esquecimento, e começa o seu longo somno de quarenta annos, no fundo d'uma gaveta, sob a capa de poeira dos manuscriptos desprezados.
Encontrados os manuscriptos, decifrados, conhecida a sua historiai era grande ainda a minha hesitação.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.