Por Camilo Castelo Branco (1862)
Chegou o dia em que ela me havia de mostrar D. Martinha no momento em que mais digna fosse da minha compaixão.
Desceu a mulata do terceiro ao segundo andar e disse-me: “Siga-me pé ante pé.” Segui-a, e entrei numa alcova, que tinha portas cortinadas para uma saleta. A condutora afastou um todo-nada da cortina e mandou-me espreitar através da vidraça.
Vi D. Martinha despeitorada e reclinada sobre a otomana. Com os joelhos no estrado estava ele a calçarlhe as meias nas pernas abandonadas aos seus carinhos. Ele, depois, estendeu-lhe os braços seio acima, cingiu-a pelo pescoço e apoiou a face na porção mais flácida do peito. Ele, depois... “Ele, quem?”, pergunta quem isto ler.
Era o tio, que dava o vinho de Setúbal aos domingos. Quando saí do observatório, inclinei o ouvido à mulata, que me dizia:
- É, ou não é, mais digna da sua compaixão do que nunca foi?
- E de nojo! - acrescentei.
Dois dias depois, tive de retirar da hospedaria, em razão de ter dito à Sra. D. Martinha que ela não valia as garrafas de Setúbal que lhe dava o incestuoso sexagenário.
A mulata... (agora me lembro que se chamava Tupinyoyo - que nome tão amável!) ficou de me visitar todos os domingos; mas ao terceiro, depois da promessa, contou-me um aguadeiro de um ricaço, vindo do Brasil, se apaixonou por ela e a levara consigo para o Minho.
Não mentiu o galego. Três anos depois a vi eu na segunda ordem do Teatro de S. João do Porto, vestida ricamente, ao lado duma grande cabeça, que estava cotada na praça do Porto em dois milhões.
Viu-me, fitou-me; não sei se corou; o pudor naquela ordem de peles não sei a cor que toma. Para ouvir a opinião pública, perguntei a diferentes elegantes quem fosse a mulata, e todos. À uma, me responderam que era filha dum titular brasileiro e que fora educada em Londres.
Não desmenti a opinião pública. Seria uma ingratidão à mulher que me ergueu dos seus pés, quando eu lhe pedia o seu amor com lágrimas. Se eu fosse opulento como o homem vindo do Brasil, talvez que ao lado dela, no camarote de S. João, estivesse eu, e não ele.
Falta-me falar da sétima mulher.
V
Eu tinha um amigo que se namorara duma modista francesa e me pedia que fosse intérprete do seu coração, na língua de Vítor Hugo. Não me pareceu custoso fingir a língua de Vítor Hugo, sendo a semelhança julgada pela modista. Parece-me que Vítor Hugo não entenderia as minhas cartas escritas no seu idioma; quero, porém, acreditar que a francesa não acharia mais poesia nem mais correção raciniana no poeta das Orientais.
As minhas cartas pertenciam ao sistema que os mestres em epistolografia amorosa determinaram para as modistas. Era o sistema da precipitação dos sucessos e da catástrofe. À oitava carta, convencionou-se o encontro do meu amigo com a francesa numa quinta em Carnide, indo ela acompanhada de uma sua amiga na carruagem, que devia esperá-las à porta oriental do Passeio Público.
- Como há de ser isto?! - disse eu ao meu amigo -; como te hás de tu entender com ela?
Cibrão ficou um pouco enleado e respondeu:
- É verdade!... como hei de eu entendê-la!... Há quinze dias que comprei um dicionário portuguêsfrancês e uma guia de conversação; mas pouco ou nada sei...
- Como há de ser isto? Eu acho ridícula a tua posição se , às primeiras palavras da francesa, tens de lhe dizer, numa língua que ela não entende, que não percebes a língua que ela te fala. Vocês afinal acabam por se rirem francamente um do outro, e com o ridículo matam o amor.
- Vais tu comigo? - acudiu Cibrão, de golpe.
- Vou; mas, ainda assim, o que faço é aumentar com a minha ida os personagens da farsa. Como queres tu que a francesa me faça a língua do seu coração, se eu suponho que a sua vontade é dizer-te coisas que envergonham dois amantes na presença de terceira pessoa? E calculas tu quanto seria cômico estar eu entre ti e ela compondo para francês e traduzindo para português a linguagem intraduzível dos suspiros? Afinal rir-nos-íamos todos três. A minha opinião é que não vás. Inventa um pretexto, que dê em resultado uma outra entrevista, em que se dispense um longo prefácio de palestra e em que o silêncio seja necessário como recato e cautela. Não vás a sítios em que a natureza campestre te obrigue a discorrer acerca de flores e delícias das tardes estivas. Procura um encontro nas trevas, de modo que a tua inteligência de línguas fique também em trevas, dando-lhe tu em compensação as mais significativas provas de tua sensibilidade, sem alardo de espírito. Às frases responde suspirando. O je vous aime virá sempre a propósito. Aprende a conjugar bem o verbo aimer. - Esse já eu sei.
- Já? Eu amo?
- J’aime.
- Eu amarei.
- J’aimerai.
- Bem. Je t’aimerai pour la vie, par toujours, éternellement. Entendes?
- Perfeitamente.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.