Por Camilo Castelo Branco (1864)
Eu estava ouvindo, como quem sonha, Afonso de Teive. Andavam já a formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto embrutecido na aldeia; e posto que a defesa do paradoxal consórcio entre estômago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me descapacitei de que o espirito de Afonso havia sofrido profundas comoções que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os objectos do mundo exterior. Eu não podia convencer-me de que a felicidade alterasse daquele modo o génio e maneiras de um homem, que eu jamais ouvira preconizar as regalias do estômago. Crer que o bem-estar da alma procedia de uma brutificação dela mesma e que o encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivência de sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras e das magnificências da arte, enfim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me absurdeza e falsificação no carácter de Afonso de Teive.
Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou em poucos anos o espírito menos propenso que eu vira à paz dos campos e ao absoluto apartamento da sociedade.
Estava a ceia na mesa. Que enorme ceia comemos e que estrondoso ruído fizeram os meninos!
III
No dia seguinte ao domingo de festa que eu passei com Afonso reaparecera o sol magnífico da véspera.
Afonso de Teive mandou aparelhar um ordinário garrano, o qual, no dizer do dono, era um luxo nas suas cavalariças, visto que Afonso raras vezes saia para além dos muros da sua quinta. Da residência do reitor veio de empréstimo uma égua aparelhada de albardão e estribos de pau que pareciam alqueires. Depois do almoço cavalgámos, embrenhámo-nos por uns quinchosos pedregosos, e saímos à estrada entre Guimarães e Famalicão. Estava destinado um passeio de duas léguas. A égua abacial era tão firme no piso que eu dei de mão às rédeas, formei de um estribo o travesseiro e deitei-me no albardão, para admirar horizontalmente a natureza, maneira de ver que eu recomendo aos curiosos que ainda não viram assim a natureza. Ao meu lado ia Afonso de Teive, corcovado sobre o pescoço do garrano, que não obedecia à rédea, nem à espora: era preciso falar-lhe rijo, ou espertá-lo à paulada. E Afonso ria-se.
- Quem te viu e quem te vê, Afonso de Teive! - exclamei eu. - Quem te viu em Lisboa naquele cavalo preto, que levantava ferozmente as patas, como para te cuspir à calçada, e as baixava humildemente e- a tremer se tu lhe murmuravas uma palavra!
Quem te viu ao lado daquela Palmira...
Mal proferi esta palavra, Afonso cravou-me os olhos súbito abra abrasados do antigo fogo. Fingiu que sorria, querendo esconder a mutação do rosto. Voltou a face para onde eu não podia ver-lha; e, passa dos alguns segundos, murmurou:
- Lá se foi a alegria do nosso passeio.
- Porquê?! - acudi eu-, perdoa-me, se involuntariamente feri tua sensibilidade...
Eu cuidei que entre ti e o teu passado estava u abismo incompreensível aos olhos da tua saudade... Pensei que ao homem feliz eram indiferentes as recordações dos bons e dos ruins tempos da mocidade.
Afonso deteve-se a encarar-me, e disse de golpe:
- Tu ignoras a minha vida desde 1850?
- Juro-te que não sei nada da tua vida - respondi.
- E dessa mulher que chamaste Palmira?
- Nada sei, senão que...
- Diz o que sabes... que hesitação é a tua?
- Apenas soube que era casada, que saíra daqui para Lisboa contigo, e mais nada.
As pessoas a quem perguntei por ti eram os teus velhos amigos, que encolhiam os ombros e diziam: "Quem sabe lá!" Desde 1856 que te esqueci completamente. Argúi, se quiseres, a minha desmemoriada amizade; mas a verdade é esta. Eu sou, pouco mais ou menos, como todos os teus amigos.
Serenou-se o aspecto de Afonso de Teive, e fomos indo silenciosos, até apearmos em Guimarães na estalagem da Joaninha, que está neste mundo a competir em graças, limpeza e poesia com a Joaninha de Almeida Garrett, nas Viagens.
Jantámos, saímos a ver a terra, que eu nunca vira em Dezembro, enxergámos à luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que resistiam ao frio da tarde encostadas aos peitoris das suas janelas; entrevimos galantíssimos olhos de outras através das rótulas, que ainda agora nos estão contando virtudes de outras eras, virtudes que precisavam de rótulas, como as belas flores exóticas precisam de estufa.
Voltámos à estalagem, tomámos chá e uns pastelinhos que hão-de ir futuro além relembrando o mavioso nome da Srª Joaninha. Depois pedimos duas camas num quarto, e tivemos a satisfação de ver que nos davam um quarto com cinco camas, ou coisa assim.
- Há dez anos - disse Afonso -, é esta a primeira vez que durmo fora de minha casa. Acho-me só e estranho. Penso que estou a mil léguas de minha mulher e de meus filhos.
- Eu vou mandar aparelhar as cavalgaduras - disse eu - e vamos embora, que está magnífica a noite.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.